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Sindicato dos Servidores das Justiças Federais no estado do Rio de Janeiro - Telefone: (21) 2215-2443

XXV Plenária da Fenajufe começa com chamado à unidade, cultura e debate sobre os rumos da categoria

Abertura reuniu falas sobre conjuntura, carreira e desafios de 2026; apresentação do Afoxé Filhas de Gandhy, aprovação do regimento e mesa sobre opressões marcaram o primeiro dia

Palavras de luta, esperança e compromisso com o futuro da categoria marcaram o início da XXV Plenária Nacional da Fenajufe, nesta quinta-feira (4/6). Reunindo cerca de 300 pessoas, entre delegadas, delegados e observadores de todo o país, o encontro começou com discursos voltados à construção coletiva das estratégias da categoria diante dos desafios políticos, institucionais e orçamentários do próximo período.

 

Na mesa de abertura, a coordenadora-geral da Fenajufe e diretora do Sisejufe, Soraia Marca, conduziu uma fala de acolhimento e convocação à unidade. Em um dos momentos mais simbólicos, fez a leitura do poema Por que cantamos, de Mário Benedetti, destacando o verso:

“Cantamos porque cremos nessa gente e porque venceremos a derrota.”

A mensagem reforçou a confiança na capacidade de mobilização, resistência e conquista da categoria diante do cenário que se desenha para os próximos anos.

Também na abertura, o coordenador-geral da Fenajufe e diretor do Sisejufe, Edson Mouta, destacou o peso político do encontro.

“Passados 23 anos, sou eu quem repete esse bordão: esse encontro é um dos mais importantes”, afirmou.

Ao mencionar os desafios colocados para o próximo período,entre eles o cenário político-eleitoral de 2026 e as disputas por orçamento no âmbito do Judiciário, Edson defendeu organização e capacidade de leitura do momento político para orientar as decisões da categoria.

Encerrando sua fala com uma referência ao poema Madrugada Camponesa, de Thiago de Mello, deixou uma mensagem para os próximos dias:

“Faz escuro mas eu canto, porque a manhã vai chegar.”

A coordenadora Luciana Carneiro também destacou pautas centrais da categoria, como carreira e enfrentamento ao assédio. Como gesto simbólico de acolhimento e reação diante de situações de violência ou constrangimento, foram distribuídos apitos aos participantes. Denise Carneiro reforçou a importância da valorização da carreira.

Na sequência, foi instalada a mesa para leitura do regimento interno da plenária, que contou com a participação da coordenadora da Federação e diretora do Sisejufe, Fernanda Lauria. A leitura do regimento foi suspensa para a apresentação cultural de mulheres do afoxé Filhas de Guandi.

Cultura, ancestralidade e participação

Essa apresentação foi um dos momentos marcantes do início da plenária. As Filhas de Gandhy trouxeram canto, ancestralidade e participação coletiva ao encontro.

Primeiro bloco de afoxé feminino do Brasil, criado em 1979, em Salvador (BA), o grupo nasceu do desejo das companheiras dos estivadores do Filhos de Gandhy de também ocuparem as ruas e construírem seu próprio espaço de expressão cultural. Ao longo de mais de quatro décadas, consolidou uma trajetória marcada pela resistência, pela valorização da cultura afro-brasileira e pelo protagonismo das mulheres negras.

Com seus cânticos e danças, o grupo emocionou e colocou a plenária para cantar junto, em um momento que conectou memória, identidade e mobilização coletiva.

Aprovação do Regimento Interno

Na sequência da apresentação, foi retomada a mesa para leitura e votação do regimento interno, com a apreciação dos destaques apresentados ao texto. Um dos debates centrais foi a tentativa de alterar a ordem dos temas previstos na programação da plenária.

Um grupo buscava deliberar sobre o plano de lutas, que é a apresentação de todas as propostas, cujos temas serão debates em cada mesa, trazendo conteúdo formativos e informativos para embasar o debate no plano de lutas. E a maior parte da plenária defendeu a manutenção da sequência originalmente construída, argumentando que todas as discussões devem anteceder esse debate para oferecer elementos políticos e estratégicos às definições posteriores.

Na defesa da proposta, foi destacado que o debate em todas as mesas é fundamental para compreender o cenário político, a correlação de forças e as condições concretas que impactam as decisões da categoria.

Ao final da votação, prevaleceu a manutenção da ordem prevista inicialmente para os debates.

Outro ponto que gerou intenso debate foi o artigo 40, referente à comissão de ética. Foi rejeitado o destaque que questionava a permanência no auditório apenas de delegadas, delegados, observadoras e observadores credenciados na plenária, mantendo-se a redação original. Com um acréscimo consensuado ao artigo 41, o regimento interno foi aprovado.

Mesa de combate às opressões

Encerrando o primeiro dia da XXV Plenária Nacional da Fenajufe, a Mesa 1 reuniu diferentes convidadas para discutir como as múltiplas formas de opressão atravessam o mundo do trabalho e por que políticas de equidade, inclusão e interseccionalidade precisam ocupar um lugar central na atuação sindical. As exposições abordaram gênero, raça, experiências LGBT+ e pessoas com deficiência (PCDs).

Políticas de cuidado e bem-viver entram na agenda sindical

Ao tratar das opressões de gênero, Jandyra Uehara, secretária nacional de Políticas Sociais e Direitos Humanos da CUT Nacional, defendeu que o movimento sindical amplie seu horizonte de atuação para além das reivindicações tradicionais.

Entre os temas destacados, ela apontou a necessidade de políticas públicas voltadas ao cuidado — especialmente para crianças, idosos e pessoas dependentes — e defendeu que essa agenda seja incorporada como pauta permanente das entidades sindicais.

Jandyra também chamou atenção para desafios contemporâneos que impactam diretamente a vida dos trabalhadores, como a regulação das big techs, os efeitos das redes sociais e a necessidade de construir escalas de trabalho mais humanas.

Segundo ela, é preciso fortalecer lutas concretas e unificar o movimento sindical em torno de bandeiras que garantam condições reais de bem-viver.

Reflexões sobre a luta LGBT

Ao abordar as opressões em torno da experiência LGBT+, Sara York compartilhou experiências pessoais e reflexões sobre legitimidade, identidade e convivência com a diferença.

Mestre e doutora em Educação pela UERJ, Sara afirmou que, apesar de sua trajetória acadêmica, continua sendo atravessada pela busca por respeito e reconhecimento.

Ela criticou práticas de deslegitimação e lembrou situações em que pessoas são reduzidas a estereótipos ou colocadas em posições de ridicularização. Também refletiu sobre como determinados corpos são aceitos institucionalmente enquanto outros seguem sendo alvo de exclusão e controle social.

Durante a fala, convidou o plenário a refletir sobre os “pactos silenciosos” presentes no cotidiano e sobre como relações de poder continuam operando mesmo quando não aparecem explicitamente.

“Peço que vocês sustentem a agonia da diferença do outro, permitindo que o outro exista na sua singularidade”, afirmou.

Para Sara, enfrentar opressões exige abandonar respostas simplificadas e reconhecer que a diferença precisa ter espaço legítimo de existência em todos os ambientes.

Interseccionalidade fortalece e renova o movimento sindical

Representando o debate sobre opressão racial e racismo estrutural, Maria Madalena Nunes, diretora do Sintrajufe/PI, destacou que as opressões não atuam isoladamente; elas se cruzam e se aprofundam por meio da interseccionalidade.

Segundo a sindicalista, incorporar pautas trazidas pelos movimentos sociais ampliou o alcance do sindicalismo e aproximou as entidades da realidade concreta vivida pela classe trabalhadora.

Maria Madalena argumentou que, historicamente, o movimento sindical esteve mais concentrado em reivindicações corporativas e econômicas, mas passou a se fortalecer ao incorporar discussões sobre desigualdade, exclusão e diferentes formas de violência social.

Ela também relacionou esse debate à realidade do Judiciário, criticando estruturas historicamente concentradas em grupos privilegiados e defendendo que a presença dessas pautas obriga instituições tradicionais a enfrentar desigualdades que antes permaneciam invisibilizadas.

Para a dirigente, essa aproximação com os movimentos sociais produz renovação política e fortalece o papel transformador do sindicalismo.

Deficiência, desigualdade e direito ao cuidadão

Encerrando a mesa, a psicóloga e doutoranda em Saúde Coletiva Jennifer Farias de Souza trouxe reflexões sobre capacitismo e as condições sociais que atravessam a experiência das pessoas com deficiência.

Partindo da própria trajetória, Jennifer relatou ter adquirido sequelas da poliomielite ainda na infância e associou sua experiência às desigualdades sociais e às condições de vida.

Ela defendeu que deficiência também precisa ser compreendida como questão social e política e afirmou que condições precárias de trabalho, acidentes e ausência de políticas públicas produzem exclusão e ampliam o número de pessoas com deficiência.

Jennifer criticou a lógica que valoriza os indivíduos apenas pela produtividade e questionou a ausência de políticas estruturadas de cuidado e inclusão.

Ao apresentar dados sobre ocupação de cargos e representatividade, chamou atenção para a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e destacou que desigualdades raciais e sociais aprofundam esse cenário.

A palestrante também ressaltou que a deficiência atravessa todas as etapas da vida e que qualquer trabalhador pode vivenciar essa condição.

Ao concluir, destacou a importância das referências coletivas e da construção de orgulho e pertencimento entre grupos historicamente excluídos, reconhecendo o papel dos movimentos LGBT+ e de mulheres negras como inspiração para outras lutas por reconhecimento e ocupação de espaços.

Espaço para reflexões

Após as falas, o espaço foi aberto a intervenções dos participantes da plenária. Os diretores do Sisejufe Ricardo Soares e Patrícia Fernanda foram sorteados para falar.

Ricardo, que coordena o Departamento de Acessibilidade e Inclusão (DAI), avaliou o debate como positivo e destacou a representatividade das falas, em especial da representante das pessoas com deficiência, Jennifer Farias de Souza. Em sua intervenção, Ricardo resgatou a trajetória de organização do segmento no Judiciário Federal até a criação do coletivo de servidores e servidoras com deficiência da Federação e defendeu mais efetividade na atuação.

“Eu e outros companheiros estamos há mais de 25 anos trazendo essa temática para dentro do Judiciário Federal e, depois de 20 anos de luta, conseguimos construir um coletivo de servidores e servidoras com deficiência na Fenajufe. Agora, a nossa luta é para que esse coletivo funcione de fato. Não gostaria de esperar mais 20 anos para ver isso acontecer. Seguimos enfrentando a invisibilidade e tentando sair desse ‘etc.’ em que as pessoas com deficiência são colocadas todos os dias na sociedade brasileira”, afirmou.

Patricia Fernanda ressaltou que participa do movimento sindical por conta da militância no movimento antirracista e, muitas vezes, se questiona por que está ocupando esses espaços e se está fazendo um bom trabalho. “Ouvir essa mesa me renovou. Me fez lembrar quem eu sou e reafirmar que não estou aqui por acaso. Renovou o meu pacto comigo mesma, com a sociedade e com a minha militância enquanto mulher preta. A gente aprende que sozinha não vai a lugar nenhum. Para chegar longe, é preciso caminhar em grupo. E é esse ideal coletivo que precisamos fortalecer também dentro da nossa atuação sindical”, afirmou a dirigente.

Abaixo, mais alguns momentos do primeiro dia de plenária:

 

 

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