Alto contraste Modo escuro A+ Aumentar fonte Aa Fonte original A- Diminuir fonte Linha guia Redefinir
Sindicato dos Servidores das Justiças Federais no estado do Rio de Janeiro - Telefone: (21) 2215-2443

Plenária da Fenajufe: conjuntura e inteligência artificial marcam debates sobre os desafios da organização da categoria

Análises sobre cenário político, economia, tecnologia e mundo do trabalho devem subsidiar a construção do plano de lutas da Federação

O segundo dia da XXV Plenária Nacional da Fenajufe iniciou com as as deliberações da Comissão de Ética.

Em seguida, a federação seguiu com a mesa de Análise de Conjuntura Nacional e Internacional. As exposições buscaram contextualizar os desafios colocados para a organização sindical e para a classe trabalhadora diante das transformações políticas, econômicas e tecnológicas em curso.

Participaram do debate a secretária-adjunta de Mobilização e Relação com os Movimentos Sociais da CUT Nacional, Taís Adams Gramowski; a professora e pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), Marilane Teixeira; e o economista Plínio de Arruda.

Conjuntura política, democracia e fortalecimento das lutas coletivas

Ao abrir sua exposição, Taís Adams destacou que a análise de conjuntura não é apenas um exercício de interpretação do cenário político, mas um instrumento para orientar estratégias e definir prioridades de atuação dos movimentos sociais e sindicais.

A dirigente situou o debate em um contexto internacional marcado pela reorganização da ordem mundial, pela disputa econômica entre grandes potências e pelo fortalecimento de setores da extrema direita em diversos países. Segundo ela, esse cenário tem impactos diretos sobre o papel do Estado, o serviço público e os direitos sociais.

Taís também relacionou o crescimento de discursos de ódio e da violência às desigualdades estruturais e chamou atenção para os efeitos dessas dinâmicas sobre mulheres, população negra, pessoas com deficiência e população LGBT+.

Ao tratar do cenário brasileiro, apontou que o país ainda convive com uma forte correlação de forças conservadora no Congresso Nacional, apesar das mudanças ocorridas no Executivo nos últimos anos. Em sua avaliação, o período iniciado após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff representou um ciclo de retirada de direitos e de pressão sobre movimentos sociais, sindicatos e políticas públicas.

Ela citou mudanças na legislação trabalhista e previdenciária e defendeu que a organização sindical continue articulada com movimentos populares na defesa dos interesses da classe trabalhadora como um todo.

Entre as pautas destacadas, mencionou a defesa dos serviços públicos, a valorização dos servidores, a ampliação da participação política de mulheres e trabalhadores nos espaços institucionais e o fortalecimento de agendas voltadas à redução das desigualdades sociais.

Economia, desigualdade e desafios do mundo do trabalho

 

Na sequência, Marilane Teixeira concentrou sua exposição nas transformações econômicas recentes e nos impactos sobre as condições de vida da população trabalhadora.

A professora observou que, apesar das mudanças de orientação política em diferentes países, permanecem desafios estruturais como desigualdade, concentração de renda e agravamento das questões ambientais.

Ao analisar o cenário brasileiro, destacou indicadores recentes de crescimento econômico, queda do desemprego e aumento do rendimento médio, mas ponderou que esses resultados ainda não são percebidos de forma homogênea pela população.

Segundo Marilane, fatores como o alto custo de vida, o endividamento das famílias e desigualdades históricas ajudam a explicar esse descompasso. Ela também ressaltou que mulheres — especialmente mulheres negras — continuam entre os grupos mais afetados pela precarização e alertou para o avanço de formas de contratação que podem ampliar processos de pejotização.

Para a pesquisadora, organização coletiva e pressão social seguem fundamentais para enfrentar desigualdades e defender direitos.

Cenário internacional e impactos sobre o serviço público

Encerrando a mesa, Plínio de Arruda apresentou uma leitura sobre o cenário econômico internacional e seus reflexos para países periféricos como o Brasil.

Em sua exposição, abordou disputas geopolíticas, mudanças na dinâmica da globalização e impactos dessas transformações sobre políticas públicas e capacidade de atuação do Estado.

Ao tratar do serviço público, destacou desafios relacionados às restrições fiscais e aos efeitos das transformações tecnológicas sobre o mundo do trabalho.

Inteligência artificial, automação e os novos desafios para o trabalho no PJU e MPU

 

O segundo painel do dia colocou em debate um dos temas mais presentes nas transformações contemporâneas do trabalho: os impactos da inteligência artificial e da automação sobre a organização laboral, os direitos e o futuro do serviço público.

A mesa foi conduzida pelas coordenadoras Fernanda Lauria e Sandra Dias e pelo coordenador Fábio Saboia. Participaram do debate o professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Sérgio Amadeu; a docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Luci Praun; e o presidente do Instituto Nacional de IA com Direitos Sociais (INIADS), José Vital.

Tecnologia, poder e disputa sobre os dados

Abrindo o painel, Sérgio Amadeu propôs uma leitura crítica sobre a inteligência artificial e questionou interpretações que associam essas ferramentas à reprodução da inteligência humana.

Segundo o professor, os sistemas de IA operam a partir da coleta e do processamento de grandes volumes de dados e refletem interesses econômicos, políticos e modelos específicos de organização do trabalho.

Amadeu defendeu que trabalhadores e entidades sindicais compreendam os mecanismos por trás dessas tecnologias para ampliar sua capacidade de intervenção. Na avaliação do expositor, o avanço da automação pode intensificar formas de controle, reduzir margens de autonomia e reorganizar relações de trabalho.

Entre os temas apontados como estratégicos para a agenda sindical estão a realização de estudos de impacto sobre sistemas automatizados, limites à vigilância tecnológica, formação continuada, compartilhamento dos ganhos de produtividade e fortalecimento da soberania digital.

Inteligência artificial e reorganização das relações de trabalho

Na sequência, Luci Praun aprofundou o debate a partir das transformações produzidas pela digitalização nas formas de produção e gestão do trabalho.

A docente observou que existe uma construção discursiva que busca aproximar inteligência artificial e inteligência humana, mas argumentou que essa equivalência precisa ser problematizada.

Segundo ela, o desenvolvimento dessas tecnologias depende da coleta contínua de dados gerados nas interações cotidianas com plataformas e infraestruturas digitais.

Luci também destacou que a integração em tempo real de processos produtivos e modelos de gestão amplia capacidades de coordenação e monitoramento, mas ocorre de maneira desigual e pode aprofundar assimetrias econômicas e sociais.

Ao abordar o setor público, alertou para o risco de expansão de processos de fragmentação e precarização do trabalho e defendeu respostas coletivas diante das mudanças que atingem não apenas o ambiente profissional, mas a vida social como um todo.

IA, direitos sociais e soberania tecnológica

Encerrando o painel, o presidente do INIADS (Instituto Nacional IA com Direitos Sociais,  José Vital, ampliou a discussão para os impactos estruturais da inteligência artificial na sociedade.

Ao recuperar transformações históricas nas relações de trabalho, argumentou que a incorporação tecnológica sem mecanismos de regulação pode aprofundar desigualdades e fragilizar direitos.

Entre os pontos defendidos pelo expositor estiveram a regulamentação do uso da IA, a proteção dos direitos sociais no ambiente digital e o fortalecimento da soberania tecnológica.

José Vital também propôs que a categoria acompanhe de forma permanente os efeitos dessas mudanças e apresentou como possibilidade a construção de um Observatório de Inteligência Artificial no Judiciário Federal, voltado à produção de conhecimento e ao acompanhamento dos impactos das novas tecnologias sobre o trabalho.


Com o encerramento do painel, a plenária avançou para a consolidação de diagnósticos sobre cenário político, econômico e tecnológico que devem orientar os debates seguintes e contribuir para a definição das prioridades de mobilização e organização da categoria.

Imprensa Sisejufe, com informações da Fenajufe 

Últimas Notícias