Enquanto trabalhadores recorrem diariamente à Justiça do Trabalho em busca de proteção contra abusos patronais, uma realidade alarmante emerge nos bastidores do próprio TRT da 1ª Região: servidores responsáveis pelo funcionamento das audiências denunciam jornadas extenuantes, ambiente tóxico, adoecimento físico e mental e falta absoluta de reconhecimento institucional.
O cenário veio à tona após entrevistas realizadas entre outubro e novembro de 2025 pela Divisão de Desenvolvimento de Pessoas (DDOPE), vinculada à Secretaria de Gestão de Pessoas (SGP) do TRT1. A pesquisa tinha como objetivo compreender por que a função de secretário de audiência vem enfrentando crescente dificuldade de ocupação nos últimos anos.
O resultado, porém, revelou algo muito mais grave: um retrato contundente de precarização silenciosa dentro do próprio Poder Judiciário Trabalhista.
“Temos hora para chegar, mas não para sair”
Os relatos colhidos pela DDOPE desmontam qualquer ideia de normalidade nas condições de trabalho enfrentadas pelos secretários de audiência.
Servidores descrevem jornadas imprevisíveis, ausência de pausas mínimas, pressão constante por produtividade e cobrança intensa por metas. Muitos afirmam trabalhar sob a lógica de que existe horário para começar, mas nunca para terminar.
Além das audiências, os secretários acumulam funções administrativas e operacionais complexas, incluindo manuseio de sistemas como Snipe, PrevJUD e Renajud, expedição de alvarás e outras atividades burocráticas que extrapolam em muito suas atribuições originais.
A situação é agravada por uma distorção apontada claramente no relatório: embora quase todas as 146 Varas do Trabalho do TRT1 possuam formalmente com dois secretários de audiência, frequentemente apenas um servidor permanece efetivamente dedicado às audiências, enquanto o outro é deslocado para tarefas internas da secretaria. Na prática, isso significa sobrecarga crônica e desvio funcional institucionalizado.
“Ambiente de trabalho tóxico”
O documento também revela um aspecto especialmente delicado: a relação entre magistrados e secretários de audiência.
Por ocuparem posição de extrema proximidade operacional com os juízes, os servidores afirmam conviver diariamente com tensão, cobranças excessivas e constrangimentos constantes. Para muitos entrevistados, a convivência com determinados magistrados representa uma das maiores fontes de desgaste psicológico da função.
Os depoimentos descrevem um ambiente marcado por rigidez extrema, pressão emocional e ausência de empatia. Há relatos de servidores que evitam pedir interrupções até mesmo para beber água ou utilizar o banheiro, receosos da reação dos magistrados durante as audiências.
A contradição chama atenção: enquanto magistrados questionam em audiência o respeito aos intervalos intrajornada de trabalhadores reclamantes, secretários frequentemente permanecem horas seguidas sem qualquer pausa.
Adoecimento generalizado: “os dados são alarmantes”
O ponto mais grave do relatório talvez esteja nos impactos à saúde dos servidores.
Segundo os dados levantados pela própria DDOPE, 64,2% dos entrevistados afirmaram ter desenvolvido problemas físicos ou psíquicos em razão do exercício da função. Entre eles, 45,2% relataram adoecimento simultaneamente físico e mental.
Os relatos incluem tendinite, crises de ansiedade, dores crônicas, cefaleias persistentes, problemas renais e episódios que exigiram afastamento médico.
Alguns servidores afirmaram que, diante da pressão cotidiana nas salas de audiência, passaram a ignorar sinais do próprio corpo, suportando dores e desconfortos para evitar interrupções no andamento das sessões.
O quadro descrito no relatório evidencia uma estrutura de trabalho que não apenas desgasta, mas adoece sistematicamente seus profissionais.
“Sou tratado como mero digitador”
Além da sobrecarga e do adoecimento, os secretários denunciam a sensação permanente de invisibilidade institucional.
Os entrevistados afirmam que a crescente complexidade da função não tem sido acompanhada de valorização profissional nem reconhecimento por parte da administração e de magistrados.
O relatório aponta disparidade evidente entre as responsabilidades atribuídas aos secretários de audiência e o tratamento funcional conferido ao cargo. Servidores destacam que funções consideradas menos complexas possuem níveis remuneratórios equivalentes ou até superiores, reforçando a percepção de desvalorização.
Mesmo diante da importância estratégica da audiência trabalhista — núcleo central da atividade jurisdicional — muitos relatam serem vistos apenas como operadores de digitação, ignorando-se completamente o alto grau de responsabilidade técnica, emocional e operacional exigido pela função.
“Cada juiz trabalha de um jeito”
Outro problema estrutural identificado é a completa ausência de padronização nas rotinas de audiência.
O relatório revela que cada magistrado conduz os trabalhos conforme critérios próprios, obrigando os secretários a adaptar constantemente procedimentos, métodos e fluxos operacionais.
Enquanto alguns juízes já utilizam ferramentas de gravação audiovisual e inteligência artificial para otimizar audiências, outros permanecem presos a modelos antigos, exigindo digitação integral das atas em tempo real — prática que amplia significativamente o desgaste físico e mental dos servidores.
A situação se agrava com a rotatividade de juízes substitutos, frequentemente designados por poucos dias para diferentes Varas do Trabalho. Em muitos casos, mudanças bruscas de metodologia são impostas sem qualquer transição ou treinamento.
Na prática, o secretário de audiência se transforma em peça de adaptação permanente de um sistema sem uniformidade mínima.
Diagnóstico grave e silêncio institucional
O conteúdo do relatório provocou forte preocupação na diretoria do Sisejufe, que vê nos dados um sinal inequívoco de adoecimento institucional dentro da Justiça do Trabalho da 1ª Região.
Mais do que reclamações pontuais, o documento revela indícios de uma cultura organizacional marcada por sobrecarga, pressão contínua e normalização do sofrimento no ambiente de trabalho.
Até o momento, porém, o TRT1 não anunciou medidas concretas capazes de enfrentar os problemas expostos pela própria pesquisa interna.
E a pergunta que permanece é inevitável: como uma instituição criada para proteger direitos trabalhistas permite que seus próprios servidores trabalhem sob condições que eles mesmos classificam como insustentáveis?
Para a diretora do Sisejufe, Carla Nascimento, o principal problema apontado pelos secretários de audiência na pesquisa é a relação tóxica no ambiente de trabalho. “Os secretários convivem diretamente com os magistrados e, quando não há valorização do servidor, mas tratamento inadequado, rigor excessivo e até humilhações diante de advogados e partes, isso afeta profundamente a saúde mental”, afirmou.
Carla defendeu que, além de melhorias tecnológicas, o TRT priorize medidas para qualificar a relação entre magistrados e servidores. “É fundamental colocar em prática ações já propostas pela SGP, Didope e CSAD, como cursos de prevenção ao assédio e gestão de pessoas, oferecidos pela Escola Judicial. Caso contrário, a tendência é o esvaziamento da função, já que cada vez menos servidores têm interesse em assumir o cargo”, disse.
Pedido de esclarecimentos
O sindicato enviou ofício à Presidência do TRT1, nesta quarta-feira (27/5), solicitando esclarecimentos e providências diante dos resultados do relatório (leia aqui).