SINDICATO DOS SERVIDORES DAS JUSTIÇAS FEDERAIS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
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Errata: A falsificação da cultura popular confundida como cultura de massa

Roberto Ponciano*

A importância de terminar o ano no Sisejufe celebrando a cultura popular se traduz em ser um ato militante em favor do popular contra a cultura de massas. Há um falso entendimento de que cultura popular representa a cultura de massas em si, mas isto é uma falsificação. Foi Theodor Adorno quem cunhou o termo de “cultura de massas” e “indústria cultural”, para fazer a diferenciação entre ambas.

 

Mas na era da produção em escala, o capitalismo também criou uma forma “sofisticada” de cultura, no sentido de sofisma, e não de sofisticação. Tirando tudo o que há de profundo e espontâneo– uma vez que a cultura popular sobreviveu como forma de narrativa do processo de ser povo, e foi passando, oralmente de geração a geração – a cultura de massas é uma caricatura desta cultura popular, cujo grande objetivo, desta cultura mercadológica, é ganhar dinheiro. A própria esquerda sucumbe á esta tentação, no Congresso da CUT de 2012 o que se cantou no encerramento é de fazer os militantes de cultura popular chorarem, ao som de “eu quero tchum, eu quero tcha” e porcarias afins. Os sindicatos também sucumbem esta lógica e em lugar de trabalharem por cultura popular acabam por cair na tentação e morder a maçã do burlesco, substituindo projetos de cultura popular por festas de pão e circo, na qual “tchetcheretchetche” e lixos afins são ouvidos.

 

Enquanto a cultura popular cria formas de transcender a realidade através do belo e faz a crônica da vida das pessoas do povo miúdo, a cultura de massas é um epifenômeno, cuja característica principal e ser uma cópia mal feita, borrada dos processos de cultura popular, e que se retroalimenta não na busca de reproduzir valores através da beleza e da manifestação artística, mas de se valorizar através da venda.

 

A comparação seria entre o artesanato e a indústria. Podem-se fazer produtos melhores e mais duráveis através da indústria e da produção em série, isto ninguém nega (seria como negar 200 anos de progresso), mas não se pode fazer cultura num processo alienante. O processo de produção em massa é o processo da alienação e do fetiche, a cultura sempre foi uma forma de se reificar, de se reapropriar da própria humanidade, da essência do ser humano. Ou seja, sempre foi crítica à margem do processo de massa. Por isso, quando a cultura começa a ser feita da mesma forma que se fazem fogões e geladeiras, ela fica grotesca. O filósofo francês Alain Badiou coloca a poesia como uma das formas de se reapropriar um sentido humano, uma narrativa no meio do caos pós-moderno.

 

O problema é que tem muita gente na esquerda que perdeu o fio da meada e o viés histórico e filosófico do que seja cultura. Passou a confundir cultura de massa com cultura popular, ou seja, aquela cópia caricata feita pelo mercado e para a grande mídia das manifestações legitimamente populares. Passou a considerar o burlesco e o vulgar (que se repete infinitamente e se fixa como osmose e não se cria como narrativa de um povo), como símbolo de manifestação popular. Na verdade este burlesco e vulgar vendidos são pura imitação, caricatura, impostas de cima para baixo, e são fixadas como verdades, para as cabeças já vendidas e entregue de alguns como “cultura popular”. O clone burlesco toma o lugar da cultura popular original.

 

Neste processo de mistificação as manifestações genuinamente populares vão perdendo espaço e vez, voz e continuadores, já que a cultura popular, fixada e herdada na oralidade, perde seus continuadores e sucumbe, vista no processo de liquidificador cultura falsamente democrático como “folclore” ou “ultrapassada”. Nos programas “Esquenta” da vida, se perpassa uma falsa visão de “democracia”, no qual o liquidificador da mídia tritura os processos de voz da classe oprimida e os transforma em enlatados que caibam na sua grade curricular.

 

Então, fazer uma oficina na qual se canta e dança jongo, maracatu, coco, embolada, samba de quadra, afoxés, cantos de orixás, maxixe, toda a infinita gama de cultura popular de imensa riqueza que corre risco de extinção é simbólico, significa que continuamos lutando pela sobrevivência de uma cultura na qual nós não somos a cópia burlesca que a mídia faz de nós mesmos, mas reproduzimos perenemente a cultura popular autêntica, crônica e alma de um povo.

 

*Diretor do Departamento de Cultura e Formação

**Na edição nº 39 de Ideias em Revista foi publicado o artigo  “A falsificação da cultura popular confundida como cultura de massa”, escrito pelo diretor do Departamento de Cultura e Formação, Roberto Ponciano. O texto do artigo publicado na revista foi alterado devido a edição, o que para o autor do artigo descaracterizou a essência da mensagem. Por isso, o Departamento de Imprensa, conforme pedido pelo diretor Roberto Ponciano, publica esta errata e traz o texto na íntegra e sem qualquer modificação conforme enviado pelo autor.

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