SINDICATO DOS SERVIDORES DAS JUSTIÇAS FEDERAIS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
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Oriente só é Médio para quem não vive lá

Jacques Gruman*

Eleições nas democracias burguesas estão cada vez mais parecidas com reality shows. O diretor geral se confunde com o marqueteiro e trata de fascinar os otários, quero dizer, os eleitores, com artifícios visuais e discursos ocos, tão verossímeis quanto as projeções estatísticas dos economistas. Há, porém, uma diferença crucial: o Big Brother tem mais audiência do que qualquer debate político-eleitoral. Isso tudo, porém, é superfície.

 

O essencial se passa nos bastidores, fora do alcance visual – e auditivo – dos cidadãos. Conchavos, arranjos oportunistas e os onipresentes balcões de negócios prenunciam o verdadeiro jogo de poder, ao largo do joguinho televisivo. Inimigos declarados se tornam amigos de infância em troca de alguns segundos a mais na telinha. Fernando Henrique Cardoso abraçado com Antônio Carlos Magalhães, Lula “ficando” com Maluf e Eike Batista: ninguém tem o direito de se surpreender com esses movimentos ilusionistas. As cartas, que não mentem jamais, não estão ao nosso alcance.

 

Em Israel, não é diferente. Lá como cá, partidos surgem e desaparecem como cogumelos, compõem-se por “pragmatismo”, envolvem-se em escândalos de corrupção. Claro que há particularidades. Cada sociedade tem suas idiossincrasias. Nas eleições de 22 de janeiro, o partido que representa os colonos (na verdade, usurpadores de terras palestinas, sempre com cobertura oficial) foi turbinado por um empresário carismático, que propôs a anexação definitiva de 62% da Cisjordânia. Um âncora de TV, vocalizando as angústias da classe média assustada com a crise econômico-social do país, pilotou um novo partido e o transformou na segunda força eleitoral. A questão palestina desapareceu da agenda. Com exceção da esquerda, que tem pequeno peso eleitoral, sequer foi citada na campanha. Mistura de frustração e desconfiança no futuro. Dialética do faz-de-conta.

 

Não pretendo analisar a pantomima eleitoral. Prefiro refletir sobre duas questões que corroem as entranhas do Estado judeu e ameaçam, nas palavras do sociólogo Zvi Barel, “jogá-lo no abismo”. A primeira é o papel da religião na sociedade e na vida partidária. Os israelenses, mesmo os laicos, nascem e morrem sob a sombra religiosa. Como o país não tem uma Constituição, são os rabinos que definem quem é judeu (pela tradição ortodoxa, é aquele que nasce de um ventre judeu, ou seja, prevalece a matrilinearidade). Com isso, que comentarei em detalhe mais adiante, determina os direitos de cidadania de que desfrutará o recém-nascido. Não há casamento civil, filhos de mães não-judias e pais judeus não podem ser enterrados em cemitérios judaicos. A chamada Lei do Retorno, em vigor desde 1950, só vale para os judeus reconhecidos como tais pelos critérios religiosos.

 

Ao contrário do que acontece na maioria das comunidades judaicas no mundo, em Israel predominam os chamados ortodoxos e ultraortodoxos. Representam cerca de 10% de população israelense e, como sua taxa de natalidade é superior à média nacional, calcula-se que chegarão a 30% em meio século. Mais de metade das crianças matriculadas em jardins de infância do país estão em instituições ligadas a correntes religiosas radicais ultraortodoxas ou nacionalistas-religiosas. Segundo pesquisa feita pelo Instituto Israelense de Democracia, 85,4% dos jovens religiosos israelenses prefeririam optar por preceitos religiosos ao invés dos valores da democracia. Nos bairros onde predominam essas correntes religiosas, há uma clara discriminação contra as mulheres. Elas são segregadas em linhas de ônibus e, em certos lugares, forçadas a caminhar em calçadas separadas daquelas por onde caminham os homens.

 

Sem obrigação de servir nas Forças Armadas, estes religiosos dedicam-se ao estudo quase exclusivo dos textos sagrados, como a Torá e o Talmud. Não se preparam para o mercado de trabalho e, em consequência, mais de 60% deles estão abaixo da linha da pobreza (cerca de 12% no restante da população). São, portanto, quase sempre, famílias grandes e pobres, sustentadas pelos impostos de todos os israelenses. Os casos de riqueza entre eles são raríssimos. Ao contrário dos “pastores” brasileiros: segundo a revista Forbes, Edir Macedo tem uma fortuna pessoal estimada em quase US$ 1 bilhão. Valdemiro Santiago, Silas Malafaia, R. R. Soares e o casal Hernandes têm patrimônios que variam de US$ 65 a US$ 220 milhões.

 

Esta fatia da população acaba multiplicando sua influência através de partidos políticos. Dos 34 registrados em Israel, 11, ou seja, um terço, são ligados a correntes religiosas. Todos seguem, invariavelmente, a orientação da liderança espiritual, misturando sinagoga com parlamento, fé com direitos públicos e universais. Somente dois dos onze partidos têm representação parlamentar (em Israel vigora uma cláusula de barreira, de 2% dos votos válidos): Shas e Judaísmo da Torá (tradução livre). O Shas, que já andou envolvido com negociatas e escândalos de corrupção, representa principalmente os chamados mizrahim (judeus orientais) e tem cacifado seu poder de barganha na formação dos governos israelenses. São essas negociações que acabam privilegiando as reivindicações, muitas vezes reacionárias, dos religiosos. Na última campanha eleitoral, defendeu a expulsão dos imigrantes africanos “para preservar o caráter judaico de Israel”. Sua doutrina é encharcada de xenofobia e preconceito. Já o Judaísmo da Torá tinha, como principal ponto programático, a preservação do sábado como dia de descanso total, como mandam os preceitos rígidos da religião judaica.

 

Há uma dura luta dos judeus seculares contra o avanço das correntes religiosas radicais. Essa é uma batalha que definirá o perfil de um Estado que nasceu alimentado pelo trabalhismo secular, que subestimou, tristemente, a ascensão dos setores religiosos. Um rabino reformista, Uri Regev, disse que “hoje em dia, a sociedade israelense já apresenta sinais de fundamentalismo religioso e, se a proporção do setor religioso radical na população geral aumentar, esses sinais vão se fortalecer”. A nós, judeus de esquerda, repugna a perspectiva de qualquer sociedade dominada pela rua religiosa. Nesse aspecto, o crescimento da influência dos “homens de preto” em Israel traz tanta preocupação quanto a permanência do Conselho dos Aiatolás, no Irã, como poder real no Estado persa. Idade Média devia ser assunto apenas dos livros de História.

 

A segunda questão é a que se refere aos árabes israelenses. O establishment sionista, em Israel e no mundo, orgulha-se pelo fato de que, asseguram, o Estado judeu é a única democracia no Oriente Médio. Propaganda. Os árabes israelenses, 20% da população total do país, são discriminados de muitas formas. Um estudo importante feito pela Adalah – Centro Legal pelos Direitos da Minoria Árabe em Israel, com sede em Haifa e formada por judeus e árabes, fez um levantamento detalhado dessas discriminações. Eis um pequeno resumo delas:

 

* A definição de Israel como “Estado Judeu” ou “Estado para o povo judeu” torna a desigualdade uma realidade prática, política e ideológica para os cidadãos árabes do país, que são marginalizados e discriminados pelo Estado pelo fato de não serem judeus. São frequentemente rotulados de “quinta coluna”. Pesquisa do Instituto Israelense de Democracia, em 2010, mostrou que 53% dos judeus pesquisados defendiam ações públicas que estimulassem os árabes a saírem de Israel.

 

* A pobreza é muito maior entre as famílias árabes (cerca de 50%) do que entre as famílias judias (cerca de 20%). Cidades e aldeias árabes têm piores índices de qualidade de vida. As aldeias árabes beduínas no deserto do Neguev são as comunidades mais pobres do país. De acordo com o Adalah, essas distorções têm causa direta na discriminação institucional contra os cidadãos árabes de Israel.

 

* Os cidadãos árabes não podem servir nas Forças Armadas. Isso é não apenas um estigma social, mas interfere diretamente no mercado de trabalho. Não são poucas as empresas que exigem o certificado de serviço militar como pré-requisito para contratação. Por falar em mercado de trabalho, apenas 6% dos servidores públicos são árabes. Detalhe: o serviço público é o maior empregador individual em Israel.

 

* Os árabes têm acesso restrito às terras, que são destinadas majoritariamente à população judaica. Cidades e aldeias árabes sofrem com superpopulação (apenas 2,5% da área total de Israel são ocupados por essas localidades). Enquanto isso, desde a criação de Israel, em 1948, foram construídos cerca de 600 cidades e povoados judaicos, contra nenhum árabe.

* Há números dolorosos nos setores de educação e saúde. O investimento estatal em escolas árabes é muito menor do que nas escolas judaicas. Estudantes universitários árabes são apenas 1,2% do setor universitário do país. Na sociedade do conhecimento, isso resulta em decadência e atraso. Cidadãos judeus vivem mais do que seus conterrâneos árabes. Bloqueios de toda espécie impedem um tratamento igualitário na rede pública de saúde.

 

Cada um desses itens é detalhado com rigor na pesquisa do Adalah. Os desníveis de todos os tipos derivam em desconfiança, desalento, revolta e, infelizmente, racismo. Nenhuma sociedade verdadeiramente democrática poderá sobreviver quando parcela significativa de seus membros for jogada para o submundo da discriminação. Não pergunte por quem os sinos dobram: eles dobram por ti. Nós, judeus ou não, podemos ajudar, fortalecendo os setores que, em Israel, se rebelam contra o fundamentalismo religioso e o supremacismo. Há, em ambos os campos, um caminho fértil a percorrer, que desaguará em melhores perspectivas de solução para o conflito com os palestinos e os países árabes limítrofes com Israel.

 

*Jacques Gruman é engenheiro químico e militante internacionalista da esquerda judaica no Rio de Janeiro