A posição foi definida durante o Planejamento Estratégico da entidade, realizado em 17 de outubro, a partir da análise dos programas de governo, das propostas em discussão no Congresso Nacional e do histórico das políticas que atingem o serviço público, os trabalhadores, aposentados e pensionistas.
A deliberação expressa a posição da Diretoria, como não poderia deixar de ser e respeita a pluralidade de opiniões e a liberdade individual de voto da categoria.
Nesta eleição, não se trata apenas de escolher quem ocupará a Presidência da República. As eleições também colocam em discussão o papel do Estado, a proteção dos direitos sociais, o futuro das servidoras e servidores públicos, de nossa carreira e do serviço público e o funcionamento das instituições democráticas.
Para o Sisejufe, essas questões dizem respeito ao nosso futuro e de toda a sociedade.
Quando o serviço público é enfraquecido, quem perde é a servidora, o servidor e a população que precisa de saúde, educação, previdência, segurança e Justiça.
Dois programas, diferentes prioridades
A comparação dos programas de governo de Lula e Flávio Bolsonaro revela diferenças importantes.
O programa de Lula defende a valorização dos servidores públicos, o fortalecimento do Estado, a melhoria dos serviços oferecidos à população e a continuidade da Mesa Nacional de Negociação Permanente, retomada em seu governo (páginas 16 e 17).
Também prevê a regulamentação da negociação coletiva no serviço público, reivindicação histórica do movimento sindical (páginas 76 e 77).
O programa de Flávio Bolsonaro apresenta como prioridades a redução de despesas, a diminuição da estrutura administrativa, o corte de ministérios e cargos comissionados e a continuidade da reforma administrativa (páginas 68 a 70).
A proposta também defende a transformação digital e a ampliação do uso de inteligência artificial nos serviços públicos para, inclusive, a redução de contratações de servidores.
A modernização administrativa é necessária, mas não pode ser tratada como simples redução de custos. É preciso considerar a qualidade do atendimento, a continuidade dos serviços, a proteção de dados, as condições de trabalhoe a saúde do servidor e a presença de profissionais qualificados.
O histórico das reformas precisa ser considerado
Durante o governo Jair Bolsonaro, foi aprovada a reforma da Previdência de 2019, que modificou regras de aposentadoria e pensão por morte.
Em 2020, o governo encaminhou ao Congresso a PEC 32, conhecida como reforma administrativa, que previa mudanças nas formas de contratação e na estabilidade de parte dos futuros servidores.
A proposta não foi convertida em emenda constitucional, mas o debate sobre a reforma administrativa permaneceu na agenda política.
Em 2025, a PEC 38, apresentada pelo Deputado Zé Trovão,do Partido Liberal, trouxe outro conjunto de mudanças para a administração pública. Essa proposta precisa ser examinada quanto a seus possíveis efeitos sobre carreiras, remuneração, condições de trabalho e prestação de serviços.
O programa de Flávio Bolsonaro propõe continuar a reforma administrativa, mas não detalha integralmente quais alterações pretende implementar. Não afirma expressamente que acabará com a estabilidade ou com os concursos públicos. Porém, seu programa tem como ponto fundamental a redução de 250 bilhões já no primeiro ano de seu eventual governo com cortes e congelamento salarial.
A ausência de definições claras torna ainda mais importante exigir esclarecimentos sobre as medidas pretendidas.
A experiência do governo Jair Bolsonaro também deixou registros que não podem ser ignorados
Em reunião ministerial de abril de 2020, o então ministro da Economia, Paulo Guedes, referiu-se ao congelamento de salários dos servidores utilizando a expressão “granada no bolso do inimigo”.
A declaração foi divulgada publicamente em maio daquele ano e se tornou símbolo do conflito entre a política econômica daquele governo e as reivindicações do funcionalismo.
O congelamento remuneratório afetou a capacidade de recomposição das perdas salariais e foi objeto de críticas das entidades sindicais.
Mais recentemente, declarações de Daniella Marques, coordenadora da área econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, levantaram questionamentos sobre a reposição de servidores aposentados por meio de concursos públicos.
Ao discutir o uso de inteligência artificial, a economista sugeriu que determinadas funções administrativas poderiam ser substituídas por tecnologias digitais.
A incorporação de inteligência artificial pode melhorar processos e serviços. Entretanto, sua utilização exige planejamento, transparência, supervisão humana e avaliação das necessidades reais de pessoal.
No Judiciário da União, onde já existem problemas de sobrecarga, adoecimento e insuficiência de servidores, a tecnologia não pode ser apresentada como solução automática para a redução da força de trabalho.
Modernizar não pode significar abandonar a população ou sobrecarregar ainda mais quem trabalha.
Direitos trabalhistas e a PEC das Horas Trabalhadas
As diferenças entre as candidaturas também aparecem nas propostas para o mundo do trabalho.
O programa de Lula defende o combate à precarização, o fortalecimento da negociação coletiva, a proteção dos trabalhadores de plataformas digitais e a redução da jornada semanal para 40 horas, sem redução salarial (páginas 73 a 76).
O programa de Flávio Bolsonaro propõe reduzir custos do trabalho formal, ampliar modalidades contratuais e fortalecer a negociação direta entre empregados e empregadores (páginas 43 e 44).
Outra proposta em debate é a PEC 12/2026, apresentada pelo senador Rogério Marinho e outros parlamentares, entre eles Flávio Bolsonaro.
A chamada PEC das Horas Trabalhadas prevê a possibilidade de contratação em regime flexível, com remuneração proporcional às horas trabalhadas.
Pelo texto apresentado, benefícios como FGTS, férias e décimo terceiro salário também seriam proporcionais, e o contrato individual poderia prevalecer sobre acordos coletivos.
Os defensores da proposta afirmam que ela ampliaria a liberdade de escolha. Já as críticas se concentram nos riscos à estabilidade da renda, à proteção trabalhista e à negociação coletiva.
Em outubro de 2026, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, afirmou que o partido pretende buscar sua aprovação em 2027, caso Flávio Bolsonaro seja eleito.
A liberdade sindical não pode ser enfraquecida
A organização sindical é um direito constitucional e um instrumento de defesa coletiva dos trabalhadores.
O programa de Lula prevê o fortalecimento da negociação coletiva e sua regulamentação no serviço público.
O governo também encaminhou ao Congresso o PL 1.893/2026, relacionado à regulamentação da negociação coletiva no setor público e à Convenção nº 151 da Organização Internacional do Trabalho.
O programa de Flávio Bolsonaro, por sua vez, apresenta críticas à estrutura sindical e defende maior espaço para a negociação direta entre trabalhadores e empregadores.
É legítimo discutir formas de organização e representação sindical. Mas qualquer mudança deve preservar a liberdade de associação, a autonomia das entidades e a possibilidade de negociação coletiva.
Para os servidores do Judiciário da União, a regulamentação desse direito é especialmente importante.
Sem canais permanentes de negociação, temas como remuneração, carreiras, condições de trabalho e saúde dos servidores ficam ainda mais dependentes de decisões unilaterais da administração.
Aposentados e pensionistas precisam de proteção
Os direitos previdenciários também fazem parte desse debate.
A reforma de 2019 alterou requisitos de aposentadoria, regras de cálculo de benefícios e pensões por morte.
O programa de Lula prevê fortalecer a Previdência Social, ampliar a proteção previdenciária e melhorar o atendimento aos segurados (páginas 76 e 77).
O programa de Flávio Bolsonaro concentra suas propostas na gestão do INSS, na redução das filas e no combate às fraudes (páginas 26 e 72 a 73).
São objetivos que precisam ser avaliados juntamente com a preservação dos direitos previdenciários.
O Sisejufe continuará defendendo a dignidade dos aposentados, a proteção dos pensionistas, a paridade quando aplicável, a revisão de regras que reduziram direitos e o debate sobre a contribuição previdenciária dos aposentados.
Democracia, autoritarismo e liberdade de organização
A defesa dos direitos dos trabalhadores não pode ser separada da defesa da democracia.
A história demonstra que processos autoritários podem apresentar características como concentração de poder, culto à liderança, desqualificação dos adversários, ataques à imprensa, questionamento das instituições, rejeição ao pluralismo e hostilidade à organização independente dos trabalhadores.
O fascismo e o nazismo foram fenômenos históricos específicos, marcados por características e crimes próprios. Não é correto equipará-los automaticamente aos movimentos políticos atuais.
Entretanto, o estudo desses regimes e das formas contemporâneas de autoritarismo permite reconhecer práticas que colocam em risco as instituições democráticas.
No Brasil, os ataques ao sistema eleitoral, a contestação infundada dos resultados das eleições de 2022 e os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 reforçam a importância da defesa da Constituição, da alternância de poder e das liberdades democráticas.
A liberdade sindical integra essas garantias.
O direito de organização dos trabalhadores, a liberdade de expressão e a independência das instituições devem ser preservados, inclusive quando existem divergências políticas profundas.
Nossa posição e a unidade da categoria
A Diretoria do Sisejufe considera que os programas de governo, as propostas legislativas e o histórico das políticas adotadas oferecem elementos relevantes para sua deliberação no segundo turno.
É nesse contexto que se insere a posição do voto em Luiz Inácio Lula da Silva, aprovada pela Diretoria.
A posição não representa uma exigência de unanimidade entre os filiados.
O Sisejufe reúne servidores da Justiça Federal, da Justiça do Trabalho, da Justiça Eleitoral e da Justiça Militar, ativos, aposentados e pensionistas, com diferentes opiniões políticas e trajetórias pessoais.
Nossa unidade não depende de todos pensarem ou votarem da mesma maneira. Ela se constrói em torno dos direitos e das reivindicações que compartilhamos.
O Sindicato continuará defendendo a recomposição salarial, a reestruturação e a valorização das carreiras, os concursos públicos, a reposição da força de trabalho, a negociação coletiva, a saúde dos trabalhadores e os direitos dos aposentados e pensionistas.
Também continuará defendendo uma Justiça pública, independente, acessível e comprometida com os direitos da população.
A independência sindical significa manter a capacidade de dialogar, negociar, reivindicar e cobrar compromissos de qualquer governo.
As eleições passam. Os desafios da categoria permanecem.
Por isso, a Diretoria reafirma o compromisso com a participação democrática, o respeito às diferenças e a construção coletiva das nossas lutas.
Nenhuma divergência eleitoral deve ser maior do que nossa disposição de defender coletivamente nossos direitos.
Nossa força está na unidade. Nossa legitimidade está na participação. Nosso compromisso é com toda a categoria e com a defesa do serviço público.
Diretoria do Sisejufe
Rio de Janeiro, outubro de 2026.
Referências documentais e bibliográficas:
1. Programas de governo
LULA PRESIDENTE. Diretrizes para o Programa de Transformação do Brasil. Programa de Governo, 2026. Especialmente páginas 16–17 e 73–77.
BOLSONARO, Flávio. Para o Brasil Vencer o Atraso: Diretrizes do Plano de Governo 2027–2030. 2026. Especialmente páginas 24–26, 43–45 e 68–73.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Planos de governo dos candidatos à Presidência da República — segundo turno de 2026. https://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2026-content/propostas-de-governo-dos-candidatos-ao-cargo-de-presidente-da-republica-eleicoes-2026-segundo-turno/planos-de-governo-dos-candidatos-ao-cargo-de-presidente-da-republica-eleicoes-2026-2-turno
2. Legislação, reformas e direitos
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
BRASIL. Emenda Constitucional nº 103/2019 — Reforma da Previdência.
BRASIL. Câmara dos Deputados. PEC nº 32/2020 — Reforma Administrativa.
BRASIL. Câmara dos Deputados. PEC nº 38/2025 — Reforma Administrativa.
BRASIL. Senado Federal. PEC nº 12/2026 — Regime de trabalho por horas. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/174362
BRASIL. Congresso Nacional. PL nº 1.893/2026 — Negociação coletiva no serviço público.
ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Convenção nº 151, de 1978.
BRASIL. Decreto nº 7.944/2013.
3. Declarações, reportagens e análises
UOL NOTÍCIAS. Vídeo de reunião ministerial: Guedes diz que governo colocou granada no bolso do inimigo. 22 de maio de 2020. https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/05/22/guedes-diz-que-governo-colocou-granada-no-bolso-inimigo-na-economia.htm
FENAJUFE. Paulo Guedes articula mais uma granada no bolso dos servidores. 19 de agosto de 2020. https://www.fenajufe.org.br/noticias-da-fenajufe/paulo-guedes-articula-mais-uma-granada-no-bolso-dos-servidores/
PODER360. Flávio discutirá cortes com Poderes se eleito, diz Daniella Marques. Reportagem sobre declarações da coordenadora econômica da campanha. https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/flavio-discutira-cortes-com-poderes-se-eleito-diz-daniella-marques/
ICL NOTÍCIAS. Coordenadora de Flávio sugere trocar servidores públicos por inteligência artificial. 19 de outubro de 2026. https://iclnoticias.com.br/coordenadora-flavio-substituir-servidores-ia/
DIAP. Por dentro da máquina pública federal, os números desmentem Daniella Marques. Outubro de 2026. https://mail.diap.org.br/index.php/noticias/artigos/93226-por-dentro-da-maquina-publica-federal-os-numeros-desmentem-daniella-marques
SENADO FEDERAL. Rogério Marinho propõe PEC que flexibiliza jornada de trabalho. 28 de maio de 2026. https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/05/28/rogerio-marinho-propoe-pec-que-flexibiliza-jornada-de-trabalho
CNN BRASIL. Flávio tentará aprovar PEC das horas trabalhadas após eleição, diz Sóstenes. 14 de outubro de 2026. https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/flavio-tentara-aprovar-pec-das-horas-trabalhadas-apos-eleicao-diz-sostenes/
CNN BRASIL. Entenda o que muda com o fim da escala 6×1 e quando começa a valer. 14 de outubro de 2026. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/macroeconomia/entenda-o-que-muda-com-fim-da-escala-6×1-e-quando-comeca-a-valer/
4. Publicações sindicais
SISEJUFE. Eleições 2026: propostas para o serviço público nos programas das candidaturas mais bem posicionadas nas pesquisas. 14 de setembro de 2026. https://sisejufe.org.br/noticias/eleicoes-2026-propostas-para-o-servico-publico-nos-programas-das-candidaturas-mais-bem-posicionadas-nas-pesquisas/
SISEJUFE. Segundo turno das Eleições: O que Lula e Flávio Bolsonaro propõem para o serviço público e os servidores. 14 de outubro de 2026. https://sisejufe.org.br/noticias/segundo-turno-das-eleicoes-o-que-lula-e-flavio-bolsonaro-propoem-para-o-servico-publico-e-os-servidores/
SISEJUFE. Posicionamento: Dois projetos em jogo — um destrói; o outro defende o servidor público, o SUS, o povo e a independência dos três poderes. Reprodução do posicionamento da Fenajufe, 30 de setembro de 2026. https://sisejufe.org.br/noticias/posicionamento-dois-projetos-em-jogo-um-destroi-o-outro-defende-o-servidor-publico-o-sus-o-povo-e-a-independencia-dos-tres-poderes/
FENAJUFE. Resolução nº 002, aprovada na XXV Plenária Nacional, 2026.
5. Democracia, autoritarismo e história
PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. Paz e Terra, 2007.
GENTILE, Emilio. Politics as Religion. Princeton University Press, 2006.
ECO, Umberto. O fascismo eterno. Record, 2018.
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Companhia das Letras, 1989.
LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Zahar, 2018.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. Companhia das Letras, 2019.
ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. Pólen, 2019.
BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo. Politeia, 2019.
GENTILE, Giovanni.