Combater o capacitismo exige mais do que conhecer uma definição ou evitar determinadas palavras. Significa rever conceitos, comportamentos e estruturas que produzem exclusão e dificultam a participação plena das pessoas com deficiência na sociedade. Foi a partir dessa perspectiva que o Sisejufe encerrou o Mês de Luta das Pessoas com Deficiência com a live “Letramento anticapacitista e luta das pessoas com deficiência”, que teve como tema “Desvendando mitos e revelando verdades”. A atividade foi organizada em parceria pelos Departamentos de Acessibilidade e Inclusão (DAI) e de Formação Sindical do sindicato.
O encontro foi transmitido pelo canal do Sisejufe no YouTube e teve mediação da jornalista Tais Faccioli e de Ricardo Soares, coordenador do DAI. A programação foi dividida em dois momentos. A abertura contou com a participação da presidente do Sisejufe, Lucena Pacheco Martins, e dos coordenadores da Fenajufe e integrantes do Coletivo Nacional de Pessoas com Deficiência da Federação, Gérson Sousa e Fabiana Cherubini. Na segunda parte, Ricardo Soares conduziu o letramento, tendo como convidada especial Ana Prado, doutora em Ciências, Tecnologias e Inclusão e mestre em Diversidade e Inclusão pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Também participou o diretor Dulavim de Oliveira.
Informação e escuta
Na abertura, Lucena Pacheco Martins destacou que o capacitismo não se resume a atitudes individuais, mas está relacionado à própria forma como a sociedade é estruturada. “Muitas vezes essa sociedade cria barreiras, exclui e impede que as pessoas com deficiência exerçam plenamente seus direitos”, afirmou.
Para a presidente do Sisejufe, o enfrentamento começa pelo conhecimento e pelo diálogo, especialmente porque determinadas atitudes e ideias excludentes podem ser reproduzidas sem que as pessoas percebam seus efeitos.
“Combater o capacitismo passa pela informação e, principalmente, pela escuta das próprias pessoas com deficiência”, destacou.
Lucena também relacionou o tema à atuação sindical. “Quando a gente fala em defender direitos, a gente fala em incluir e dar acessibilidade a todas as pessoas”, afirmou.
A presidente ressaltou, ainda, a importância de uma atividade construída com participação e protagonismo das próprias pessoas com deficiência. Ao mencionar o princípio que orienta historicamente o movimento, destacou: “Nada de nós sem nós”.
Para Lucena, o processo de desconstrução precisa ser permanente. “A gente precisa estar alerta sempre”, disse, defendendo que cada pessoa reconheça seus próprios comportamentos, reveja conceitos e esteja disposta a aprender.
Processo permanente
A necessidade de aprendizado contínuo também foi destacada pela coordenadora da Fenajufe Fabiana Cherubini. Ela afirmou que a luta das pessoas com deficiência é antiga, mas ainda existe um longo caminho para alcançar acessibilidade, igualdade e pleno exercício de direitos.
“A gente tem que se corrigir sempre e não pode ter vergonha nem receio de se desconstruir nessas convicções antigas e nesses vícios de linguagem, de atitudes e de ação que nós temos e carregamos”, afirmou.
A fala reforçou uma das ideias centrais do encontro: o letramento não deve ser entendido como uma etapa que se conclui, mas como um processo permanente de revisão de práticas e concepções.
Pauta sindical
Na sequência, Gérson Sousa chamou atenção para a presença das pessoas com deficiência nos ambientes de trabalho e para a necessidade de que o movimento sindical reconheça e enfrente as barreiras que ainda existem nesses espaços. O sindicalista destacou que trabalhadoras e trabalhadores não deixam suas características pessoais do lado de fora ao ingressarem nos tribunais, fábricas ou demais locais de trabalho. Mulheres, pessoas negras e pessoas com deficiência seguem enfrentando barreiras e situações de discriminação também no mundo do trabalho.
Para ele, a atuação sindical precisa ir além da defesa das pautas gerais da categoria e criar espaços permanentes de participação para as pessoas com deficiência. Nesse sentido, ressaltou a importância da existência de departamentos, núcleos e coletivos dentro das entidades, capazes de colocar a acessibilidade e os direitos das pessoas com deficiência no centro da ação sindical. Gerson também defendeu que os sindicatos tenham participação ativa na luta mais ampla pelos direitos das pessoas com deficiência na sociedade.
Ao destacar a experiência do Sisejufe, ele ressaltou a importância do trabalho desenvolvido pelo DAI e da construção de um espaço permanente para que a pauta seja debatida.
Modelo social
Na segunda parte da atividade, Ricardo Soares reiterou a importância de dar visibilidade a uma pauta ainda pouco presente no movimento sindical.
“É um tema que não é muito bem focalizado. Os sindicatos, em geral, não têm uma área específica para tratar disso, como o Sisejufe tem há muito tempo. É importante a gente estar sempre debatendo esse tema, jogando luz nessa temática”, diz.
Ricardo também chamou atenção para o enfrentamento ao capacitismo estrutural e lembrou a trajetória do Sisejufe na organização dessa luta, inclusive na construção do coletivo nacional.
“Sair da invisibilidade é um negócio que às vezes fere suscetibilidades acostumadas com o status quo, com a invisibilidade da sociedade e com o nosso capacitismo estrutural e estruturante”, acrescentou.
Em seguida, o coordenador do DAI abriu espaço para as reflexões da convidada, Ana Prado.
Ana abordou a trajetória da luta das pessoas com deficiência e a mudança de perspectiva sobre a própria deficiência.
A especialista explicou que, ao longo da história, pessoas com deficiência foram submetidas à exclusão, segregação, tutela e silenciamento. O movimento de luta passou a reivindicar outro lugar social: o de sujeitos de direitos, de escolhas e de transformação.
Essa mudança está relacionada ao modelo social da deficiência, que não nega a existência da deficiência, mas chama atenção para a relação entre as características de uma pessoa e as barreiras existentes no ambiente em que ela vive.
Ana explicou que uma pessoa pode experimentar determinada deficiência, mas encontrar um contexto social que não foi pensado para acolher a diversidade de corpos e formas de existência. É justamente nesse encontro entre a pessoa e as barreiras que se produz uma série de impedimentos à participação.
“Se nós somos diferentes e temos os mesmos direitos, temos modos diferentes de acessar os nossos direitos”, afirmou.
A partir dessa perspectiva, acessibilidade e equidade não significam oferecer exatamente a mesma coisa para todas as pessoas, mas garantir condições para que diferentes pessoas possam participar em igualdade.
Barreira atitudinal e capacitismo
Entre as barreiras que podem impedir ou dificultar a participação estão as arquitetônicas, metodológicas e de comunicação. Para Ana, no entanto, a pior barreira é a atitudinal, relacionada ao capacitismo.
Ela explicou que o capacitismo envolve valores, crenças e preconceitos historicamente construídos em relação às pessoas com deficiência, como a ideia de incapacidade, a desconfiança sobre suas competências, a infantilização e a concepção de que essas pessoas precisam ser constantemente cuidadas ou corrigidas.
Para a especialista, muitas das outras barreiras são consequência de uma sociedade que não considera a diversidade humana na hora de construir seus espaços, relações e práticas.
Ana também chamou atenção para a necessidade de reconhecer que a experiência da deficiência produz conhecimento, mas que ser uma pessoa com deficiência não significa, automaticamente, ser especialista em todos os assuntos relacionados à deficiência.
Segundo ela, conhecimento também se constrói por meio de estudo, pesquisa, reflexão, diálogo e pensamento crítico. Ao mesmo tempo, determinadas experiências só podem ser compreendidas por quem vivencia diretamente determinadas barreiras e situações. Nesse ponto, o princípio “nada sobre nós sem nós” ganhou novamente destaque.
Ana explicou que a expressão não deve ser reduzida à ideia de consultar pessoas com deficiência depois que decisões já foram tomadas. O princípio pressupõe participação efetiva na construção de conhecimentos, políticas públicas e decisões que atravessam suas vidas.
“Não basta estar na foto da inclusão; é preciso estar na mesa onde a decisão é tomada”, afirmou.
A presença das pessoas com deficiência nos espaços de decisão também está relacionada ao que Ana chamou de produção de presença. Quando uma pessoa com deficiência ocupa um espaço que historicamente não esperava sua presença, ela confronta expectativas e pode provocar deslocamentos na forma como os outros percebem a deficiência.
É um processo que pode levar à revisão de conceitos e práticas, embora nem sempre isso aconteça automaticamente.
Fadiga de acesso
Outro conceito apresentado durante o encontro foi o de fadiga de acesso. Ana relatou que, durante muito tempo, experimentava uma sensação de exaustão após determinadas situações cotidianas sem compreender exatamente de onde vinha aquele desgaste. A percepção, compartilhada com outras pessoas com deficiência, passou a ser compreendida a partir do conceito de fadiga de acesso.
Trata-se do cansaço provocado pela necessidade constante de lidar com ambientes e relações que não acolhem adequadamente as pessoas com deficiência. Não é apenas uma questão de conseguir entrar em determinado espaço. É também o desgaste de enfrentar barreiras, explicar necessidades, reivindicar adaptações e lidar com situações que colocam a pessoa em uma posição de inferioridade.
“É essa exaustão que a gente é obrigada a experimentar para a gente caber, nem que seja uma beiradinha, naquele espaço que nos acolhe”, explicou Ana.
Ricardo Soares destacou que, muitas vezes, as pessoas com deficiência precisam enfrentar sucessivas lutas intermediárias para conseguir realizar atividades que deveriam ser simples.
A expressão ajuda a dar visibilidade a uma dimensão pouco percebida por quem não vivencia a deficiência: o esforço adicional necessário para realizar tarefas cotidianas em ambientes que não foram concebidos considerando a diversidade humana.
Intimidade forçada
A especialista também apresentou o conceito de intimidade forçada, relacionado a situações em que uma pessoa sem deficiência estabelece uma interação excessivamente tensa ou artificial com uma pessoa com deficiência.
Ana explicou que isso pode ocorrer quando alguém não sabe como agir diante da deficiência e passa a controlar excessivamente seus próprios movimentos ou a tratar a pessoa de maneira diferente, criando uma relação desconfortável.
Ela citou como exemplo situações em que uma pessoa sem deficiência acompanha uma pessoa cega e demonstra preocupação excessiva com cada movimento, mesmo quando a pessoa com deficiência tem autonomia para se deslocar.
Outro exemplo é quando a deficiência se torna o único assunto possível em uma conversa. A questão, explicou Ana, não é esperar que as pessoas saibam tudo de imediato. A convivência também é um processo de aprendizagem. O problema surge quando a pessoa permanece presa a uma visão estereotipada e não permite que a relação se desenvolva de maneira natural.
Uso do termo “atípico”
Ricardo Soares trouxe para o debate a crescente utilização do termo “atípico”, inclusive por veículos de comunicação. Ele lembrou que a denominação “pessoa com deficiência” foi resultado de um longo processo de discussão e mobilização internacional e está presente na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro como letra constitucional, também presente na Lei Brasileira de Inclusão. Segundo Ricardo, utilizar “atípico” pode contribuir para reforçar uma ideia de anormalidade. “Essa ideia remonta a um tempo que queremos deixar para trás, em que pessoas com deficiência eram vistas como excepcionais, especiais ou como portadoras de deficiência. Hoje, queremos ser reconhecidas simplesmente pelo que somos: pessoas com deficiência”, enfatiza o diretor do Sisejufe.
Ana Prado concordou com a crítica e classificou a utilização do termo como um retrocesso. Para ela, depois de uma trajetória em que o movimento lutou para que as pessoas fossem reconhecidas antes de qualquer outra característica, a substituição por “atípico” pode novamente apagar a condição de pessoa.
A especialista chamou atenção para o sentido da palavra e para o risco de se reforçar a ideia de que determinadas pessoas são incomuns ou estão fora de um padrão considerado normal.
Sobre a expressão PCD (Pessoa com Deficiência), Ricardo observou que usar expressões como “criança PCD” ou “pessoa PCD, além de redundante, é inadequado. “PCD nada mais é do que uma sigla, mas tem sido utilizada não só como substantivo, mas também como adjetivo. É um uso que contraria inclusive a norma culta da gramática brasileira e promove um apagamento da própria ideia de pessoa”, observa o dirigente.
A defesa apresentada no encontro foi simples: a deficiência é uma característica da pessoa, não aquilo que elimina sua condição de sujeito.
Sobre expectativas
Outro ponto abordado por Ana foi a maneira como a sociedade estabelece expectativas muito baixas em relação às pessoas com deficiência. Ela relatou situações em que uma pessoa com deficiência é tratada como excepcional apenas por realizar atividades comuns, como trabalhar, estudar, sair de casa ou constituir relações.
A especialista questionou essa lógica porque, quando uma pessoa é considerada “um exemplo” apenas por viver sua própria vida, isso revela que a expectativa social em relação a ela já era reduzida.
O capacitismo também aparece, portanto, na forma como a sociedade enxerga o que uma pessoa com deficiência pode ou não pode fazer.
Da mesma maneira, Ana criticou a ideia de que pessoas com deficiência devem ser vistas apenas como “coitadas” ou, no extremo oposto, como “super-heróis”. As duas representações retiram da pessoa sua humanidade cotidiana e acabam reduzindo sua existência à deficiência.
Padrão
Ao longo da fala, Ana também questionou a lógica de uma sociedade organizada a partir de um padrão de corpo considerado normal e produtivo.
Quando determinado corpo não se enquadra nesse padrão, ele passa a ser visto como problema, custo ou desvio. A convidada relacionou essa lógica às discussões de Michel Foucault sobre corpos disciplinados e sobre os mecanismos sociais que definem quais corpos são considerados adequados.
A crítica é que a sociedade frequentemente reconhece apenas aquilo que cabe em uma determinada “caixinha”, enquanto corpos e formas de existência que escapam desse padrão são submetidos a controle, correção ou invisibilização.
Ricardo acrescentou: “O capacitismo está intrinsecamente ligado ao sistema, ao modo de produção em que vivemos, ao capitalismo e à própria noção de produtividade.”
Por isso, a luta anticapacitista não se limita à acessibilidade física. Ela envolve também uma disputa sobre quem pode ocupar espaços, produzir conhecimento, trabalhar, estudar, tomar decisões e simplesmente viver sem que sua existência seja permanentemente questionada.
Caminho para a mudança
Para Ana, reconhecer que o capacitismo é estrutural significa também reconhecer que ninguém está completamente fora dessa sociedade. Ela afirmou que é necessário admitir que aprendemos determinados preconceitos e práticas porque fomos formados dentro de uma sociedade que os reproduz. A mudança, portanto, começa pela disposição de reconhecer essas marcas e trabalhar para desconstruí-las.
A transformação pode ser desconfortável, porque implica abrir mão de concepções consideradas naturais e rever comportamentos que foram incorporados ao longo da vida, mas é justamente esse processo que o letramento pretende provocar: conhecimento, reflexão, deslocamento e mudança de práticas.
Luta permanente
No encerramento, o diretor do Sisejufe e integrante do DAI, Dulavim de Oliveira, agradeceu o aprendizado que Ana proporcionou e destacou a importância de iniciativas que enfrentem os preconceitos. “Nós aqui sofremos na pele o capacitismo”, afirmou.
Ricardo Soares reforçou que atividades de formação são necessárias para ampliar o conhecimento sobre a realidade das pessoas com deficiência e enfrentar a invisibilidade que ainda marca essa parcela da sociedade.
Ao final da atividade, Ana resumiu: “as pessoas com deficiência são resistentes e seguem na luta por seus direitos. O desafio colocado para toda a sociedade é rever conceitos, práticas e comportamentos e participar desse processo de transformação”.
A live “Letramento anticapacitista e luta das pessoas com deficiência – Desvendando mitos e revelando verdades” está disponível no canal do Sisejufe no YouTube. Cllique neste link para assistir.
Descrição da imagem em destaque: print da transmissão do letramento no YouTube; aparecem todos os participantes na tela.