Algumas frases de candidatos à Presidência ajudam a revelar mais do que suas propostas formais: mostram como cada um enxerga o Estado, os servidores e a relação entre governo e população. Na campanha de 2026, declarações sobre privatizações, reforma administrativa e corte de gastos colocam diferentes projetos em disputa.
No caso de Flávio Bolsonaro (PL), a referência é explícita. Sua coordenadora econômica, Daniella Marques, afirmou que a campanha pretende se espelhar em reformas do presidente argentino. “Vamos usar de inspiração no que foi feito pelo governo de Javier Milei”, disse, ao anunciar a revogação de mais de mil normas. Ela também defendeu a retomada das privatizações e afirmou que mais de 20 estatais poderiam ser avaliadas.
Dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (Indec) mostram que 32,3% da população estava abaixo da linha da pobreza no primeiro semestre de 2026, enquanto 7,5% estava em situação de indigência.
Levantamento da Central de Trabajadores de la Argentina (CTA) aponta outro impacto: entre novembro de 2023 (início do governo Milei) e maio de 2026, foram eliminados 337 mil postos de trabalho assalariado formal, dos quais mais de 240 mil no setor privado e quase 80 mil no setor público. Em junho deste ano, os salários reais dos trabalhadores registrados estavam, em média, 8,2% abaixo do nível de novembro de 2023. Entre os servidores públicos, a perda chegava a 16,5%.
É esse modelo, de redução do gasto e da estrutura estatal, com efeitos concretos sobre salários e empregos públicos, que a equipe econômica de Flávio apresenta como inspiração.
Zema: servidor por “vocação”
Romeu Zema (Novo) também promete uma reforma administrativa e usa uma linguagem direta ao falar do funcionalismo. Ao apresentar sua proposta, declarou que “servidor público deve trabalhar por vocação” e afirmou, alheio à realidade da maioria dos servidores públicos, que quem pretende ficar rico deveria procurar o setor privado.
O candidato defende reduzir a estrutura administrativa e os gastos com pessoal. Também já afirmou que pretende “privatizar tudo”, sem “vaca sagrada”, ao defender a desestatização de empresas públicas.
Renan e a “casta de concursados”
Renan Santos (Missão) adota outro discurso de forte ajuste fiscal. Seu programa prevê um corte de R$ 250 bilhões por ano e uma reforma administrativa com revisão de benefícios do funcionalismo.
Ao apresentar a proposta, Renan afirmou que pretende combater a “casta de concursados”, expressão usada por ele para se referir ao que considera privilégios e benefícios especiais no serviço público.
Valorização do serviço público
O candidato à reeleição Lula Inácio Lula da Silva se preocupa com o ajuste fiscal, mas não aponta uma reforma administrativa com redução do Estado. O candidato busca valorização do serviço público e do servidor.
Alerta
As propostas não são idênticas, mas algumas declarações deixam evidente que a redução de despesas, a revisão da estrutura estatal e mudanças na relação com os servidores estão presentes em diferentes candidaturas.
Para o serviço público, as diferenças não estão apenas nos detalhes de uma reforma administrativa. Elas envolvem o tamanho da máquina pública, a existência de empresas estatais, a política de pessoal, os salários e a capacidade do Estado de manter serviços diretamente oferecidos à população.
No caso de Flávio, há ainda uma particularidade: a inspiração internacional é assumida pela própria equipe econômica e o exemplo escolhido é o de Milei, cuja política de ajuste já produziu efeitos mensuráveis sobre emprego, salários e pobreza na Argentina.
As frases dos candidatos ajudam a traduzir uma questão central da eleição: que Estado cada projeto pretende deixar para servidores e para a população brasileira? É uma pergunta para levar à urna no domingo.
Imprensa Sisejufe, com informações de Veja, Folha de São Paulo, Notícias R7, Perseu Abramo, Indec e CTA