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Sindicato dos Servidores das Justiças Federais no estado do Rio de Janeiro - Telefone: (21) 2215-2443

21 Dias de Ativismo Contra o Racismo: Sisejufe debate os impactos do racismo no acesso a direitos e políticas públicas

Mobilização aconteceu virtualmente na última quarta-feira (18/3) e reuniu especialistas e ativistas negros

O Departamento de Combate ao Racismo do Sisejufe realizou, no último dia 18, uma live fundamental para a campanha “21 Dias de Ativismo contra o Racismo”, mobilização que ocorre desde 2016 e que atinge uma década de resistência e ação contínua em 2026. Com mediação das diretoras do sindicato, Patrícia Fernanda, coordenadora do departamento, e Renata Oliveira, também membro do departamento, o evento virtual reuniu especialistas para uma discussão profunda sobre como o racismo estrutural afeta o acesso da população negra a direitos básicos como religião, educação, saúde e trabalho.

Alexandre Marques, assessor parlamentar, historiador e babalorixá, abordou o racismo religioso e denunciou a perseguição de facções a terreiros, destacando a resistência histórica na preservação da cultura e da religiosidade afro-brasileira.

O professor da rede pública de Angra dos Reis e doutorando em Educação Lucas Nascimento defendeu a incorporação dos “21 Dias de Ativismo” como instrumento pedagógico permanente e criticou a marginalização de estudantes pretos, apontando a necessidade de um novo Plano Nacional de Educação.

A saúde da população negra foi tema da fala de Francisco Silva, pesquisador da Fiocruz, que denunciou o racismo institucional na medicina, com impactos como a alta mortalidade materna entre mulheres negras e a subnotificação de mortes por letalidade policial.

Já Luci Souza, da Secretaria de Gestão do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial, afirmou que a desigualdade racial estrutura o mercado de trabalho. Ela criticou a escala 6×1, que atinge de forma mais intensa a população negra, especialmente as mulheres, e defendeu seu enfrentamento como pauta de justiça racial e econômica. Participou da agenda, também, a diretora, membro do departamento de combate ao racismo e secretária de idosos e pensionistas do Sisejufe, Neli Rosa.


Assista à live completa (Reprodução/YouTube/Sisejufe)

Racismo religioso e a defesa da ancestralidade

O debate foi aberto por Alexandre Marques. Ele abordou o racismo religioso e os desafios enfrentados pelas religiões de matriz africana, relembrando a importante vitória no Supremo Tribunal Federal sobre a constitucionalidade do sacrifício de animais nos ritos do Candomblé. Marques denunciou também a perseguição criminosa de facções contra terreiros, destacando a luta contínua, que vem desde os ancestrais escravizados, pela manutenção da cultura e da religiosidade afro-brasileira. “Nesse período, desde a vinda de nossos ancestrais, nós conseguimos abrir portas. Não conseguimos tudo, mas conseguimos avançar muito mais nessa liberdade religiosa, contra o racismo e os preconceitos. Um evento como esse é importante pro Brasil e pra sociedade brasileira. Importante, também, para compreendermos que o racismo continua estruturado hoje e sempre”, concluiu Alexandre Marques.

A educação como ferramenta de combate

Em seguida, o educador Lucas Nascimento destacou a urgência de transformar os “21 Dias de Ativismo” em um instrumento pedagógico fixo no currículo escolar. Ele ressaltou que a educação sempre foi a principal ferramenta de enfrentamento utilizada pelo movimento negro e denunciou como o sistema atual marginaliza estudantes pretos. Lucas pontuou a trágica realidade do Rio de Janeiro, onde a violência policial e mais de 3.000 tiroteios recentes em territórios escolares impedem o acesso seguro às salas de aula. Ele defendeu a necessidade de uma educação antirracista, a efetivação da Lei 10.639 e a construção de um novo Plano Nacional de Educação que enfrente essas desigualdades.

“Nós esse ano temos alguns desafios e tarefas: a primeira delas é eleger uma bancada que consiga representar a maior parte da população brasileira, que são mulheres e pessoas negras. Mas, que essa bancada consiga construir um eixo central de defesa de uma educação pública que seja socialmente referenciada; e a segunda tarefa fundamental é que a gente consiga fazer o processo de renovação do Plano Nacional de Educação, mas que consiga incorporar uma perspectiva antirracista frente às desigualdades que são impostas pela nossa sociedade como um todo. Acredito que essas duas tarefas são muito importantes pra conseguirmos acessar os espaços de educação, mas também permanecer nesses espaços. A gente quer acessar, permanecer e galgar novos sonhos”, reforçou o professor.

Racismo institucional no SUS e o direito à saúde

A saúde da população negra foi o foco da fala de Francisco Silva, pesquisador do Projeto Prisma da Fiocruz. Ele denunciou o racismo institucional impregnado na medicina e o descumprimento de protocolos básicos, que resultam em altíssimas taxas de mortalidade materna por eclâmpsia entre mulheres negras, além da subnotificação de óbitos causados por letalidade policial. Francisco enfatizou que a saúde vai além dos hospitais, englobando moradia, religião e educação, e frisou a importância do autocuidado e da saúde mental para a população preta conseguir resistir e alcançar o “bem viver”.

“A gente tem muito trabalho pela frente e muitas parcerias a se abrir pra desmistificar toda essa estruturação e tentar chega na raiz. E fazer com que esses 21 dias, que para nós, população negra, não só 21 dias, já que nós fazemos esse ativismo 24h por dia, mas que todos façam conosco. E a informação, a educação é o que traz esse senso crítico.”, encerrou o pesquisador.

Trabalho, renda e a luta pelo fim da escala 6×1

Mestranda em políticas públicas pela FGV e coordenadora de igualdade racial, Luci Souza trouxe um panorama sobre o mercado de trabalho, afirmando que a desigualdade racial não é periférica, mas sim o que estrutura o mercado no Brasil. Ela focou na informalidade e em como a escala de trabalho 6×1 recai de forma massacrante sobre os corpos negros, especialmente as mulheres negras, negando-lhes o direito ao descanso, ao convívio familiar e à dignidade. Luci reforçou que combater a escala 6×1 não é apenas uma pauta trabalhista, mas uma agenda central de justiça racial e econômica. Como ponto de avanço, ela celebrou o recente reconhecimento da profissão de trancista pelo Ministério do Trabalho.

“A luta contra a escala 6×1 é uma batalha pela melhoria das condições de vida e trabalho, sobretudo da população negra (…) Não tem como pensar em justiça econômica sem pensar em justiça racial, e não há um desenvolvimento possível quando uma parte significativa da população trabalha mais, ganha menos e vive menos. Promover o trabalho e renda com igualdade social é enfrentar também as distorções na renda, nas oportunidades e no tempo. É algo de transformação estrutural, é um projeto de país, um legado que a gente vai deixar”, pontua a coordenadora de igualdade racial.

Sorteio do livro “Fundamentos das ações afirmativas”

O evento também contou com a presença de Leonardo Santiago, servidor do TRE-RJ e autor do livro “Fundamentos das Ações Afirmativas: uma questão de liberdade e validade”. Leonardo explicou que a sua obra busca as bases históricas no período da escravidão para entender o racismo e justificar a necessidade de políticas de cotas, rompendo o silêncio estruturante que existe dentro da teoria jurídica brasileira. Durante a transmissão, um exemplar do livro foi sorteado entre os participantes.

Homenagem emocionante à Dra. Andréa Marins

O encerramento do encontro foi marcado por dor e indignação diante da trágica morte da Dra. Andréa Marins, cirurgiã oncologista de 61 anos, assassinada a tiros por policiais militares durante uma abordagem em Cascadura, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

A coordenadora do Departamento de Combate ao Racismo, Patrícia Fernanda, leu o poema “Preta, o que você quer ser quando crescer?”, uma homenagem profunda que contrastou os 30 anos de vidas salvas pela médica com a brutalidade do Estado, que “não viu a médica, não viu a mãe, não viu a filha” e a reduziu a um alvo. O debate reforçou que a luta pela sobrevivência e pela dignidade do povo negro é contínua, deixando um apelo à resistência, ao aquilombamento e ao autocuidado de todos os ativistas.

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