Alto contraste Modo escuro A+ Aumentar fonte Aa Fonte original A- Diminuir fonte Linha guia Redefinir
Sindicato dos Servidores das Justiças Federais no estado do Rio de Janeiro - Telefone: (21) 2215-2443

SJRJ abre espaço para curso preparatório de carreiras jurídicas destinado a jovens negros e pardos

Foro autorizou a cessão de parte das instalações da Sede Administrativa para receber atividades

Apesar da adoção de políticas afirmativas que vêm contribuindo para ampliar o ingresso de negros e pardos no ensino superior, estatísticas mostram que a presença negra em carreiras mais valorizadas ainda é baixa. Na magistratura federal, por exemplo, o último Censo do Poder Judiciário, realizado em 2018, apontou que apenas 18,1% dos juízes são negros, sendo, desse conjunto, 16,5% pardos e apenas 1,6% pretos.

            Ciente do papel das instituições públicas na redução de desigualdades historicamente acumuladas, o diretor do Foro da SJRJ, juiz federal Osair Victor de Oliveira Júnior, autorizou a cessão de parte das instalações da Sede Administrativa para receber o curso preparatório para carreiras jurídicas oferecido pelo Coletivo Justiça Negra – Luiz Gama. A organização sem fins lucrativos promove a valorização da juventude negra por meio do incentivo à educação, empoderamento e combate ao racismo.

           As aulas ocorrem todo segundo sábado do mês, das 9h às 17h, no 2º andar do prédio da Almirante Barroso. O Espaço de Convivência, no 3º andar, também é utilizado para proporcionar um “respiro” entre uma aula e outra. A formação é gratuita, tem duração de dois anos e é destinada a jovens negros e pardos graduados ou graduandos em Direito. São oferecidas 40 vagas por semestre. Os interessados em participar devem enviar e-mail para jnlgpreparatorio@gmail.com.

          Além da Almirante Barroso, as aulas também ocorrem em outros três endereços, e sempre aos sábados: no Ministério Público Federal (Centro), Faculdade Presbiteriana Mackenzie (Centro) e Renascença Clube (Andaraí). Outras informações podem ser obtidas na página do Coletivo no Facebook.

Corpo docente

            O corpo docente é composto por magistrados, defensores públicos, procuradores federais e doutrinadores da área jurídica. O desembargador federal André Fontes; o juiz federal da 4ª VF de Niterói, dr. William Douglas; a juiza federal da 15ªVF, dra. Carmen Silvia Lima de Arruda, a  juíza federal da 6ª VFCr, dra. Ana Paula Vieira; e o procurador federal Leonardo Cardoso Freitas estão entre os parceiros do projeto. As autoridades se revezam para ensinar as principais matérias exigidas pelos editais.

           Entusiasta do projeto e um dos alunos do curso, o supervisor da Seção de Transporte (SETRA/DSEG), Marco Antônio Almeida, é um das grandes apostas do Coletivo para a magistratura federal.  Passar no concurso é uma forma de “preparar o terreno para as próximas gerações”. “Na minha turma da Escola dos Juízes Federais do Rio Grande do Sul (o equivalente à EMARF no RJ), eu sou o único negro. O abismo racial é muito grande”, afirma o supervisor.

 Solidariedade 

 O Coletivo iniciou suas atividades em 2014 com apenas sete estudantes e aulas quinzenais na sede da CAARJ (Caixa de Assistência dos Advogados do Rio de Janeiro), localizada na Av. Marechal Câmara, Centro. Em cinco anos, o projeto conquistou visibilidade e grandes vitórias. Cerca de 200 alunos já passaram pela formação, maioria composta por moradores da Baixada Fluminense e mulheres.

  Os resultados atingidos nos certames também são inspiradores. No último concurso para o cargo de analista da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, onze estudantes foram aprovados. Mas a expectativa dos coordenadores é ampliar esse número, afirma umas das coordenadoras do Coletivo, a advogada Giovana Mariano. “Sempre falamos para quem foi aprovado puxar alguém. Se hoje vemos negros em posições de poder é porque houve um compromisso de transformação, de ajudar os outros irmãos”, afirma a coordenadora, que também é voluntária no EDUCAFRO, em São Gonçalo.

            Para Giovana, um dos motivos que contribuíram para que a iniciativa prosperasse foi o apoio das autoridades que se sensibilizaram com a causa, seja voluntariando-se como professores ou colaborando para viabilizar a atualização do material didático. Ela cita o caso do juiz federal William Douglas.

           Ao ver que os alunos estudavam com edições desatualizadas do “Vade Mécum” (um compêndio de obras básicas do Direito), o magistrado presenteou cada estudante com um volume novo. Parcerias com editoras também foram negociadas, a fim de permitir que os alunos renovassem seu material didático pagando menos.

Empoderamento

            As atividades do Coletivo Justiça Negra também abarcam outras duas frentes de trabalho. Uma delas é o projeto “Empoderar – Curso de Formação Política em Questões Étnico-Raciais” destinado a negros e não negros. Personalidades do cenário político, social e artístico são convidados para palestrar em cada módulo. O último, realizado em abril, abordou a intolerância religiosa, com destaque para as religiões de matriz africana.

            Outra iniciativa é o “Diálogos”, uma espécie de bate papo sobre um tema pré-definido. A última edição ocorreu em agosto e recebeu a jornalista e consulesa da França em São Paulo, Alexandra Baldeh Loras, que falou sobre “A mulher negra e sua presença na construção sócio-política do Brasil”.

            O Coletivo também oferece cursos extras voltados para a comunidade, como o de “Direitos Humanos e Relações Raciais”, ministrado pelo doutorando em Sociologia e Direito pela UFF e consultor da ONU para Direitos das Minorias, Renato Ferreira.

            Por meio de uma rede de apoio e incentivo, o Coletivo vem resgatando a autoestima de muitos jovens. Segundo Giovana, a cor passou a ser um motivo de orgulho. “Estamos cada vez mais pretos, mais juntos, formando quilombos. Tenho alunos que vêm fazendo a transição do cabelo, das roupas, do pensamento, se reconhecendo negros. Isso é muito importante”, diz.

Fonte: SJRJ

Últimas Notícias