SINDICATO DOS SERVIDORES DAS JUSTIÇAS FEDERAIS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
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História de um conflito

[Texto sugerido pelo sindicalizado Marcelo Roimicher, servidor do TRF.]

Paulo Geiger

A maior parte da mídia internacional, um grande número de formadores de opinião, políticos, intelectuais, líderes de estados e de nações, líderes religiosos, organizações e instituições não-governamentais, governamentais e internacionais, pessoas comuns, movidos por intencional má-fé (no sentido de apresentar versões que lhe interessam como se fossem fatos), ou desinformação, ou desaviso, reduzem toda a essência do conflito palestino-israelense em sua fase atual à simples questão de oprimidos (os palestinos) em luta contra o opressor (Israel), que ocupa seu território e lhe impede o livre exercício de seus direitos de nação. À luz dessa redução simplista e maniqueísta, desenham-se os perfis do mocinho e do bandido. Toda ação palestina, seja qual for, inclusive terror sanguinário e violência contra civis indefesos, é vista como parte de uma luta justa, na qual os fins justificam os meios. Todas as operações de Israel em sua luta contra o terror são vistas como crimes de guerra, violação dos direitos humanos. Mesmo os que condenam o terror como método de luta nacional vêem-no como conseqüência inevitável da ocupação, e nesta a causa do conflito, aúnica causa do conflito. Ou seja, com sua ‘política militarista’, com sua ‘opressão’, com sua negação dos ‘direitos dos palestinos’ pela força, Israel seria o causador e único agente do conflito, cabendo a ele solucioná-lo com a retirada incondicional, propiciando o estabelecimento do estado palestino.

Considerando que a ocupação realmente existe, e que ela contraria de fato a aspiração dos palestinos a um estado próprio, aspiração que, independentemente de sua validade ou justificação histórica, assumiu inequivocamente o status de um direito internacionalmente reconhecido, essa maneira de ver e de concluir poderia parecer autêntica, não fosse a grande distorção, proposital ou desavisada, de ‘congelar’ a essência do conflito em seu momento atual. Proposital ou desavisadamente, não se percebe a ocupação como uma das fases – longa embora – de um complexo conflito que perdura por mais de 80 anos, conflito que, como este artigo demonstrará adiante, não foi desencadeado nem alimentado em nenhum momento pela recusa judaica, sionista ou israelense de admitir e aceitar a instalação de mais um entre os muitos estados árabes do Oriente Médio e da África – um estado dos árabes que habitavam a antiga Palestina –, mas pela recusa destes, e de todo o mundo árabe, de aceitar, ao lado desse estado dos árabes palestinos, a existência de um único estado judaico no único lugar no mundo em que poderia existir.

A compreensão de que a ocupação é apenas uma fase desse longo conflito, exigindo soluções muito mais complexas do que a simples retirada de Israel – que não levaria, por si mesma, ao fim do conflito –, exige o conhecimento de todo o processo histórico que levou a ela, o que não cabe nos espaços das agências de notícias e dos comentaristas de plantão. Muito mais simples e vendáveis são as imagens de atentados sanguinários, de meninos atirando pedras em tanques, soldados atirando em meninos, helicópteros atingindo jipes e casas, ‘luta de libertação’ contra militares opressores, a emblemação caricata de Sharon versus Arafat, as frases feitas sobre repressão, ‘massacres’, violações de direitos. A conseqüência não é só desinformação, mas a consolidação de uma opinião, de uma atitude, que acaba contaminando decisões e medidas anti-israelenses, sem falar na munição farta que se oferece ao anti-sharonismo, mas que logo se estende ao anti-israelismo, ao anti-sionismo e ao anti-semitismo.

Apenas como exemplo desse gatilho rápido movido a distorção de informação e reforçado por preconceitos e pré-conceitos: a TV mostrou ao mundo inteiro como um oficial norueguês que chefiava uma comissão da ONU, depois de um breve passeio pelas ruínas dos quarteirões de Jenin onde se travara uma batalha entre as forças de Israel e palestinos armados, na qual morreram 23 israelenses e 56 palestinos, ainda sob a falsa denúncia, veiculada por palestinos – e mais tarde refutada pela própria ONU –, de um suposto ‘massacre’ de centenas de pessoas, declara que “indubitavelmente ali ocorrera um crime de guerra”. Depois da Segunda Guerra Mundial, um tribunal internacional reunido em Nuremberg para julgar criminosos de guerra nazistas, levou semanas apresentando testemunhas, documentos, filmes, com pleno direito de defesa dos acusados, para concluir que houvera crimes de guerra e para condenar os acusados, e ainda absolver alguns. O norueguês e sua comissão precisou de alguns minutos para chegar ao veredicto e anunciá-lo ao mundo.

Este artigo destina-se a preencher essa lacuna de informação objetiva sobre a história do conflito, para permitir localizar a ocupação que caracteriza a situação atual não como sua causa, mas como sua conseqüência, e entender que a recusa árabe de aceitar a existência de Israel, e não uma recusa sionista e israelense de aceitar um estado palestino, é que constitui a raiz conceitual e histórica que o engendrou e que o alimenta.

***

A origem e única causa do conflito do Oriente Médio está ligada à questão do direito histórico dos judeus de terem uma pátria no lugar em que se formaram como nação, e que alimentou durante 2 mil anos seu sonho de retorno, sua percepção de convergência e, portanto sua unidade como povo em busca de um futuro comum. Visto erroneamente por muitos como apenas uma religião, o judaísmo é na verdade um amálgama das identidades de um povo: uma identidade histórica grupal (judaísmo parte de e implica em pertinência ao grupo), uma identidade espiritual – forjada na religião, mas extensiva a conceitos filosóficos, éticos e comportamentais – e uma identidade de destino, destino que seria o ‘retorno’ á identidade inicial em Sion, presente na gênese do povo e da nação judaica e parte importante de seu óntos e de seu ethos. O retorno a Sion, portanto, sempre foi parte da própria percepção do povo judeu da essência de seu ser, e fator decisivo de sua visão de redenção pela volta às origens.

O movimento sionista moderno, criado no fim do século XIX, alimentado pelos ideais libertários da emancipação, dos direitos do homem e das nações, trouxe para a categoria do direito internacional o sonho milenar de redenção dos judeus. Assim como todos os povos, o povo judeu teria direito à autodeterminação, e o novo movimento sionista foi criado como instrumentador dessa autodeterminação, mais adequado, em sua conceituação e métodos, à modernidade do que os sonhos messiânicos e o misticismo da escatologia judaica. O sionismo moderno é a bimilenar tensão do retorno traduzida na linguagem dos novos tempos, reconhecível por todos os povos, equiparada aos direitos de todos os povos. Visava a construir uma pátria para um povo sem pátria e nela estabelecer um estado-nação para uma nação histórica, na terra que era o berço de sua existência e o porto visado de sua longa travessia. Em 51 anos o sionismo realizou essa tarefa, viabilizada politicamente e endossada, afinal, pela decisão majoritária das nações organizadas de todo o mundo1. O Estado de Israel, que o povo judeu vê como um direito histórico da nação de Israel, surgiu como um estado legitimamente criado pela consciência universal desse direito.

A Palestina nunca foi, ao longo dos 2.000 anos, desde que deixara de ser um estado judaico soberano (com a destruição do segundo Templo, em 70, e a derrota final para os romanos, em 135), estado de nenhum outro povo ou nação. Passou de mão em mão, foi varrida por guerras de conquistas e reconquistas, mas nenhuma consciência política de pertinência à terra e a seu destino substituiu a que os judeus levaram consigo para a Diáspora e de lá a exercitaram, sonhando com a volta a Sion. Mas, no curso de uma das conquistas, a conquista árabe, que durou cerca de quatrocentos anos (do século VII ao século XI), uma população de camponeses e pequenos comerciantes árabes muçulmanos lá se estabeleceu. Aos poucos tornaram-se majoritários, mas nunca aspiraram a transformar essa predominância demográfica em fato político. Não reivindicaram soberania em nenhum dos momentos das seguidas ocupações (a partir do século XI) dos turcos seldjucos, cruzados, mamelucos, e turcos otomanos2. Foi essa presença física de uma população árabe de cerca de 700 mil pessoas no território que a ONU destinara ao Estado judaico que serviu de pretexto para a recusa árabe em aceitar a resolução.

A proposta sionista de um estado nacional judaico na Palestina nunca se baseara na exclusão da população árabe local. A imigração judaica a partir dos fins do século XIX estabelecera-se em terras compradas aos árabes e em terras devolutas – terrenos pedregosos ou pântanos infestados de malária –, que foram redimidas para a agricultura. Aos poucos a população judaica crescera e criara uma infra-estrutura econômica e social que seriam as bases para o futuro estado. Nas duas primeiras décadas do século XX, líderes árabes de países vizinhos, como o emir Faiçal e o rei Abdallah, em sua luta pela libertação do colonialismo francês e inglês, viam com bons olhos o estabelecimento judaico na Palestina, e aceitaram a idéia de uma nação judaica ao lado das nações árabes independentes que surgiriam na região. A frustração que lhes foi imposta pelas potências coloniais acarretou o rompimento com essa idéia, e uma oposição ferrenha a ela, que redundou no conflito que perdura até hoje3. A partir daí, não foram raros choques violentos entre as comunidades árabe e judaica, insuflados pelos líderes árabes dos países vizinhos, que atingiram em alguns momentos (1920, 1936) as proporções de um quase pogrom.

O movimento sionista e o establishment judaico na Palestina, por outro lado, tinham a consciência de que a realização nacional judaica em Erets Israel e as aspirações nacionais dos árabes não eram excludentes. Entenda-se que a Palestina de então compreendia terras em ambas as margens do rio Jordão, ou seja, os atuais territórios de Israel, Cisjordânia, Jordânia e Gaza. Essa foi a Palestina que a Liga das Nações, após a Primeira Guerra Mundial, outorgou à responsabilidade mandatária da Inglaterra, com o fim precípuo de lá propiciar a criação de um lar nacional para o povo judeu. Um dos primeiros atos dos ingleses, no entanto, ainda em 1922, foi entregar a margem oriental do Jordão, a Transjordânia, à família haxemita do rei Abdallah, bisavô do atual rei da Jordânia, para que lá se estabelecesse um reino árabe soberano. O movimento sionista aceitou a idéia, convencido de que, realizada assim a aspiração nacional dos árabes da Palestina, seria mais fácil partir para a realização nacional judaica no que restara da Palestina, a margem ocidental.

Mas a oposição dos árabes não arrefeceu, demonstrando que ela não partia do temor de que a presença judaica e suas aspirações nacionais pudessem prejudicar as suas próprias, mas sim de sua recusa em aceitar in limine qualquer realização nacional judaica na Palestina. Os ataques aos judeus continuaram, até que, em 1937, uma comissão internacional, Comissão Peel, chegou à Palestina – agora só a margem ocidental – para estudar a situação e sugerir uma solução. A solução proposta foi uma segunda partilha: dividir o que restara da Palestina entre os dois povos. De novo os judeus aceitaram, de novo a recusa árabe foi peremptória. A proposta da comissão Peel evoluiu para a proposta afinal apresentada na ONU em 1947, e aprovada por grande maioria na Assembléia Geral.

Os judeus da Palestina e do mundo dançaram de alegria nas ruas com a solução da Partilha; os árabes prometeram um banho de sangue, e começaram a atacar os judeus ainda antes da saída dos ingleses. No dia em que estes arriaram o Union Jack e embarcaram no último navio, 14 de maio de 1948, o Comitê Nacional judaico proclamou o estabelecimento do Estado de Israel no território que lhe fora destinado pela ONU, e no mesmo dia os exércitos de 5 países árabes invadiram o recém-criado estado. No decorrer da guerra, dos cerca de 740 mil árabes que vivam nos territórios do novo estado, entre 580.000 o e 650.000 o abandonaram, quer por pressão das forças invasoras, que os estimularam a fazê-lo prometendo que retornariam depois de sua vitória na guerra, quer por medo, quer por terem sido expulsos pelas forças israelenses4. A maioria desses árabes não foram absorvidos nos países árabes vizinhos, sendo tratados como refugiados, em acampamentos precários, sustentados em parte por recursos da ONU e dos países árabes. Foram, assim, mantidos em condições precárias, eles e seus descendentes, não por razões humanitárias, mas – até hoje –, como um instrumento de pressão política e moral sobre Israel, mesmo tendo sido o problema criado por uma guerra que os próprios árabes haviam desencadeado. Por outro lado, numa situação simétrica, em conseqüência do conflito um número equivalente de judeus (mais de 600.000) foram obrigados a abandonar às pressas, com a roupa do corpo, os países árabes nos quais viviam durante gerações, como o Iraque, a Síria, o Iêmen, o Marrocos, o Egito, a Argélia, a Líbia, o Líbano. A grande maioria foi levada a Israel em operações especiais, praticamente dobrando em um ano a população do país. Ao contrário do tratamento dispensado aos refugiados árabes, com grande esforço e sacrifício, depois de tempos difíceis em acampamentos (maabarot), foram totalmente absorvidos pela sociedade israelense. A Declaração de Independência de Israel confirmava a visão não-excludente do sionismo sobre os direitos dos dois povos, conclamando os árabes de Israel, da Palestina e dos países da região a viverem em paz com o novo estado, para juntos construírem uma era de progresso e justiça no Oriente Médio.

O armistício de 1949 estabeleceu as fronteiras – reconhecidas internacionalmente – entre o estado de Israel e o território destinado ao estado dos árabes da Palestina, este dividido entre a Cisjordânia e a faixa de Gaza. No entanto, durante os 18 anos e meio em que estes territórios estiveram à disposição dos árabes para isso, nenhum estado palestino foi estabelecido. A questão árabe não era – como nunca fora – somente a questão do direito nacional dos árabes da Palestina de terem seu estado. A questão árabe era a negação de qualquer direito judaico a uma afirmação nacional, ou seja, a um estado judaico. A Transjordânia anexou a Cisjordânia, criando o reino da Jordânia. O Egito anexou a faixa de Gaza. Não interessava criar um estado palestino e com isso esvaziar o conteúdo essencial da visão estratégica árabe: uma Palestina árabe-muçulmana integral, sem Israel, sem direitos nacionais judaicos. Propositalmente confundindo identidade nacional com religião, essa Palestina árabe era chamada de ‘estado laico e democrático’, como se laicos e democráticos fossem os estados árabes existentes, como se Israel fosse um estado teocrático e seu judaísmo se restringisse à religião, como se democracia não existisse no único estado democrático de toda a região. Os refugiados árabes foram mantidos como peões da ‘legalidade’ da causa árabe; o não-reconhecimento de Israel, o boicote econômico a Israel, depois o terrorismo contra Israel e os israelenses, foram as armas invocadas e aplicadas a partir do primeiro dia após o armistício.

Em 1964, ainda quando Cisjordânia e Gaza eram territórios sob controle árabe, numa conferência pan-árabe foi criada a OLP, Organização de Libertação da Palestina, sob a chefia de Iasser Arafat, o líder da principal organização terrorista anti-israelense, a El-Fatah . A Palestina que devia, então, ser libertada, era a das terras do Estado de Israel em suas fronteiras internacionalmente reconhecidas. Na mesma conferência foi aprovada a Carta Palestina, que preconizava explicitamente a extinção, por via armada, do Estado de Israel e de sua população. Apenas os que lá viviam antes de 1917 teriam permissão de ficar5. Amplamente ‘argumentada’, essa decisão invocava que só a aspiração nacional dos árabes da Palestina era legítima, pois os judeus não eram um povo e não tinham direito sobre aquela terra. A Carta Palestina foi o instrumento ideológico da luta árabe pela eliminação de Israel e estabelecimento de um estado palestino em toda a Palestina até pelo menos meados da década de 1990, não deixando dúvida quanto a seus objetivos estratégicos. Seus instrumentos já foram mencionados: boicote, terrorismo, ameaças, pressão política através de uma ONU reconfigurada pelo terceiro-mundismo e do apoio do bloco soviético, em sua guerra fria com o bloco ocidental.

Em 1967, três anos após ter sido exarada a Carta Palestina, talvez insuflados por falsa denúncia soviética de que Israel concentrava tropas e preparava ataque contra a Síria6, o Egito e a Síria, e logo depois a Jordânia, mobilizaram-se para o que denominaram ser a guerra decisiva contra Israel, visando a seu extermínio. Tropas egípcias e sírias, fortemente armadas pelos soviéticos, movimentaram-se para as fronteiras com Israel. O Egito pediu e obteve imediatamente de U-Thant, secretário-geral da ONU, a retirada das tropas da ONU que garantiam a paz no Sinai desde a guerra de 1956, e bloqueou o estreito de Tiran aos navios israelenses, única saída de Israel para o oceano Índico, via de seu comércio com a Ásia e a África. Mensagens irradiadas do Cairo, em hebraico, avisavam os israelenses de que eles seriam degolados e lançados ao mar. Apesar da ameaça imediata, apesar do bloqueio ilegal, nem a ONU nem qualquer iniciativa internacional foram mobilizadas para encontrar uma solução pacífica. Em 5 de junho, Israel atacou as forças egípcias, e logo depois as sírias, destruiu a maior parte de seus efetivos militares e ocupou o Sinai e as colinas de Golan. Apesar dos pedidos de Israel ao rei Hussein para que se mantivesse fora do conflito, o exército jordaniano atacou Israel. Em três dias Israel ocupou a Cisjordânia, inclusive a cidade-velha de Jerusalém. Em seis dias a guerra terminara, e Israel ocupava militarmente todo o Sinai, a faixa de Gaza, a Cisjordânia e o planalto de Golan.

No dia imediato ao cessar-fogo, o governo israelense de Levi Eshkol propôs a devolução dos territórios ocupados por uma paz definitiva. A resposta árabe veio da Conferência de Cartum, no Sudão: não a negociações com Israel, não ao reconhecimento de Israel, não à paz com Israel. A partir de então, a ocupação desses territórios tornou-se um fato político bem caracterizado pelo direito internacional, como conseqüência de uma guerra e no aguardo do contrato político que desse fim à guerra, contrato que a não-negociação, o não-reconhecimento e o não à paz tornaram inexeqüível. O terrorismo, principalmente atentados contra civis inocentes, assumiu proporções cada vez maiores, não só em Israel, como contra israelenses e judeus em qualquer parte do mundo. Mas no momento em que, entre 1977 e 19797, o Egito aceitou as negociações que haviam sido propostas por Israel ainda em 1967, acabou sendo assinado o primeiro tratado de paz entre Israel e um país árabe, e o território ocupado, o Sinai, foi integralmente devolvido.

O presidente egípcio signatário da paz foi combatido por todo o mundo árabe, e afinal assassinado. Boicote, terrorismo e recusa de negociar, o apego árabe à visão estratégica da eliminação de Israel, continuaram a impedir uma solução negociada e definitiva que permitisse a devolução de territórios num contexto de paz, única alternativa possível para essa devolução. Como poderia Israel entregar territórios para que se constituísse um estado que jurara eliminá-lo do mapa e dizimar sua população, com fronteiras a 16km de seu núcleo mais densamente povoado?

Novas esperanças surgiram em 1994, quando israelenses e palestinos, primeiro em Madrid, depois em Oslo, pareciam concordar quanto a haver chegado o momento de negociar uma solução de convivência que levasse a uma paz definitiva e ao estabelecimento do estado palestino nos territórios a serem devolvidos por Israel, o que implicou, ao menos oficialmente, o arquivamento, por exigência de Israel, da Carta Palestina de 1964. As negociações, depois de mais de setenta anos de antagonismo, ódio e incompreensão, de sangue e lágrimas, pareciam afinal, mesmo aos trancos e barrancos, com fases de paralisia e de retomada, estar se aproximando de um desfecho promissor, quando em 2000 se reuniram, de novo em Camp David, o primeiro-ministro Ehud Barak chefiando a delegação israelense, Iasser Arafat, presidente da Autoridade Palestina chefiando a delegação palestina, e o presidente norte-americano Bill Clinton como host e mediador.

O que aconteceu em Camp David, depois das gentilezas televisadas do ‘you first, please’, não tem ainda relato oficial. A síntese das versões indica que havia sobre a mesa uma proposta israelense que os próprios israelenses consideraram ‘generosa’, e que, objetivamente, oferecia: a devolução de c. 95% das terras da Cisjordânia, com negociação dos 5% restantes (permutas, compensações); estabelecimento do governo palestino em Jerusalém, que seria, assim, também a capital palestina, mas sem dividir a cidade; estabelecimento de um estado palestino nesses territórios, em condições de paz contratual com Israel. O que Israel seguramente não aceitou foi a possibilidade de ‘retorno’ de quase 4 milhões de descendentes de refugiados palestinos para dentro de Israel, e não do estado palestino, o que afetaria decisivamente o equilíbrio demográfico do país, transformando-o em pouco tempo, pela via demográfica, no estado palestino integral preconizado pela Carta Palestina aposentada.

Quais os motivos de Arafat, então, para abandonar o quase-acordo de Camp David e desfechar a nova intifada, que em dois anos levou a uma situação de renovado e trágico impasse? Alega-se que havia má-fé israelense, pois o cronograma de Oslo estava sendo descumprido. Alega-se que a visita de Sharon ao Monte do Templo, diante da mesquita do Domo da Rocha, foi uma provocação israelense. Alega-se que as condições de Israel desrespeitavam o que havia sido combinado em Oslo. Quaisquer que sejam as alegações, mesmo que sinceramente Arafat e os palestinos estejam convencidos de que são verdadeiras, elas seriam motivo suficiente para interromper uma negociação que chegara tão perto de um acordo e voltar à estaca zero da violência, do impasse, do ódio? Sharon não representava o governo de Israel, tinha o direito de estar ali como cidadão de Israel, e além do mais, a visita fora comunicada e combinada com as autoridades palestinas. Não-cumprimento de cronogramas é uma questão operacional, e não conceitual. E as condições de uma paz estavam em negociação. As negociações Beigin-Sadat-Carter passaram por crises, mas era realmente vontade das partes chegar a um acordo. Então é válido perguntar: Arafat queria mesmo chegar a um acordo? Se queria, por que recuou?

Podem-se aventar três hipóteses:

a) Arafat não conseguiu reunir coragem para vencer as pressões dos palestinos mais radicais, que nunca abandonaram a estratégia da Carta Palestina e recusam a paz e convivência com Israel8. Não quis ou não pôde enfrentar sua própria gente, como fizera Barak, para tentar convencê-la de que só com concessões mútuas se chegaria a um acordo que seria apenas o início de um longo processo de paz e desarmamento.

b) Arafat não quis aceitar uma resolução que não contemplasse 100% de suas exigências, inclusive a volta dos refugiados e a divisão de Jerusalém, por exemplo. O temor de um resultado negociado que exigisse compromissos dos palestinos o teria o levado ao confronto, na esperança de conseguir, sem compromissos, mais do que aquilo que já estava a seu alcance com uma simples assinatura.

c) Os palestinos nunca quiseram realmente uma paz definitiva com Israel que levasse a seu reconhecimento e ao enterro definitivo dos objetivos estratégicos da Carta Palestina, objetivos para cuja obtenção o estado palestino negociado seria apenas uma etapa (como definido na Carta). A exigência da ‘volta’ de milhões de refugiados para dentro de Israel, e não do novo estado palestino, parece ser um indício consistente dessa visão, exigência muito mais voltada para o enfraquecimento e a inviabilização de Israel como estado judaico do que para o fortalecimento e a viabilização do estado palestino.

O que se seguiu, os altos e baixos da violência, com os altos cada vez mais freqüentes, põem à prova, uma vez mais, as intenções verdadeiras dos dois lados. Independentemente de qual a tendência política do governo de Israel num dado momento (nos últimos sete anos Israel teve cinco líderes de estilos e concepções não idênticas: Rabin, Peres, Netaniahu, Barak e Sharon), ou qual venham a ser os governos israelense e palestino após as próximas eleições em ambos os campos, as alternativas para o Oriente Médio não mudaram, e se resumem a quatro possibilidades:

a) vitória total da visão dos extremistas palestinos (e, aparentemente, de boa parte doestablishment palestino atual), com a extinção de Israel como estado judaico e, no pior dos casos, eliminação ou expulsão da maior parte de sua população

b) vitória total da visão nacionalista extremista israelense, que se opõe ao estabelecimento de qualquer estado palestino a oeste do Jordão, mesmo em convivência pacífica com o estado judaico; isso exigiria ou a continuação da ocupação, ou a expulsão ou a eliminação da população palestina;

c) continuação indefinida do impasse e do conflito, para os palestinos levando ao assassinato e ao terror metódicos como forma de desestabilizar a sociedade judaica de Israel, e afinal conduzindo à hipótese a); para os extremistas israelenses, repressão aos palestinos e criação de fatos consumados (mais ocupação, mais colônias) que levariam, afinal, à hipótese b); para ambos, a continuação das mortes, da insegurança quanto ao futuro, do desgaste econômico;

d) acordo de convivência entre dois estados para dois povos, que seria o início de um processo de paz que levaria, com o tempo, ao desarmamento psicológico, ao fim do ódio, aos benefícios da cooperação e, por fim, à paz verdadeira, que, segundo Rui Barbosa, é aquela que emana do coração dos povos.

Por mais irreal que pareça hoje esta hipótese

d), diante do clima de ódio e conflito exacerbado, diante da desconfiança, diante da quase certeza de que são muitos os fatores que trabalham conscientemente contra ela, diante da evidência de que o objetivo estratégico dos palestinos – e seu simétrico de alguns setores israelenses – ainda é a eliminação de Israel, por mais utópica que essa hipótese d) possa parecer, nenhuma das outras lhe é preferível como caminho para o futuro, seja para que lado for. Para viabilizá-la, os israelenses teriam de assumir que, independentemente de arrazoados de natureza histórica ou religiosa, de uma alegada, e talvez tecnicamente correta, a-historicidade de uma nação árabe palestina, reivindicada como base para um estado palestino árabe, o fato é que formou-se uma ‘identidade palestina’ reconhecida internacionalmente, que é tão fato consumado quanto a presença judaica – independentemente de sua razão histórica – e o estado judaico. E os palestinos, qualquer que seja o nível de seu radicalismo, terão de se convencer de que o estado judaico, baseado no inegável direito histórico do povo judeu, é legítimo e irreversível. E o mundo terá de se convencer de que, nesse contexto, nenhuma retirada de Israel pode ser exigida fora do contexto de um acordo de paz que reconheça a legitimidade de ambas as aspirações e elimine de uma vez por todas o objetivo estratégico de extinguir o estado judaico.

Resta saber quanta dor e quanto sangue ainda serão necessários para abrir essa estrada, o que seria melhor e mais rapidamente conseguido pela coragem e lucidez de romper com o passado e com velhos conceitos. O sionismo construiu sua visão de uma nação judaica restabelecida com base no direito dos judeus de serem uma nação como todas as outras, o que inclui também seu respeito aos direitos de todas as outras. Ele ainda espera que se ouçam – do outro lado desse conflito – vozes lúcidas que entrem em ressonância com essa idéia, para criar um novo ciclo, agora virtuoso, de entendimento e convivência pacífica.

1 A Assembléia Geral da ONU, presidida por Osvaldo Aranha, decidiu, por 33 votos contra 13, a partilha da Palestina em um estado judaico e um árabe em 29 de novembro de 1947. Votaram a favor, pela primeira vez, tanto o chamado ‘bloco ocidental’ quanto os países socialistas.

2 Segundo Marcos Margulies, Israel, origem de uma crise, sem data, DIFEL, Rio de Janeiro.

3 O emir Feiçal, por exemplo, em seus entendimentos com Chaim Weizmann, em 1915, condicionara seu apoio ao estabelecimento da nação judaica na Palestina ao apoio britânico às aspirações nacionais dos árabes, que foi prometido e não cumprido.

4 Estudos mais detalhados da origem dos refugiados árabes da Palestina têm demonstrado que, embora tenha havido em alguns casos ‘estímulo’ israelense à sua fuga, na maior parte dos casos houve, principalmente no início, ainda antes da guerra, até mesmo um esforço dos israelenses para convencê-los a não abandonar suas casas; quando veio a invasão e os combates se acirraram, esse esforço diminuiu, e os israelenses ‘acomodaram-se’ com o êxodo. (v. Margulies, Israel, origem de uma crise, pp 190-195, e Paul Johnson, História dos judeus, Imago, Rio de Janeiro, 1989, p. 525)

5 Ano da Declaração Balfour, na qual a Inglaterra, que para isso receberia o mandato da Palestina da Liga das Nações, se comprometia com a criação de um Lar Nacional Judaico, sem prejuízo dos direitos dos judeus no mundo e dos árabes da Palestina, exatamente a concepção ideológica do sionismo.

6 A ONU propôs uma inspeção na fronteira para verificar a veracidade da acusação soviética. Israel aceitou, a Síria não. Ante o reiterado protesto soviético contra a ‘concentração de tropas’ Israel convidou o embaixador soviético a visitar a fronteira. O embaixador recusou.

7 Em novembro de 1977 Anuar Sadat, numa iniciativa que assombrou o mundo, visitou Israel e propôs o fim da guerra e o mútuo reconhecimento. Em 1978 em Camp David, e em 1979 no eixo Jerusalém-Cairo, Menachem Beigin – um líder da direita israelense! –, Anuar Sadat e o presidente norte-americano Jimmy Carter negociaram a paz entre Israel e o Egito, assinada em 1979. Em 1982, como Israel prometera em 1967, completava-se a devolução de todo o Sinai ao Egito.

8 A violência dos recentes atentados suicidas, a celebração dos palestinos nas ruas a cada assassinato de israelenses, a continuação da educação das crianças nas escolas e nas organizações terroristas para o ódio e para o extermínio de judeus, a oposição explícita a qualquer processo de paz, continuam a ser expressões e alimentadoras do conflito por parte das facções extremistas, sem que a representação oficial palestina, chefiada por Arafat, queira ou possa impedi-la, parecendo muitas vezes mesmo aliar-se a elas.

OUTRA OPINIÃO

O caráter essencialmente nazista da política de Israel

Nem bem terminei de ler “A linguagem do Império – Léxico da ideologia estadunidense”, de Domenico Losurdo (Boitempo, 306 páginas), o terrorismo de Estado de Israel ceifa a vida de dezenas de ativistas na madrugada dentro de um barco, alveja muitos e prende como criminosos centenas de homens e mulheres que, navegando em águas internacionais, insistiam em levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza, mantida sob bloqueio criminoso, ilegal e imoral pelos sionistas.

Como se tivesse feito um livro sob encomenda para explicar o ocorrido, o autor questiona: “o caráter essencialmente ‘fascista’ e até mesmo ‘nazista’ da política de Israel explica tudo isso?”.
Se “a ideologia da guerra que se desenvolve nos nossos dias é a linguagem do império”, a manipulação dos meios de comunicação tem sido historicamente uma arma dos que procuram justificar suas práticas genocidas. “Essa inversão dos lados de agredidos e agressores, oprimidos e opressores, não deve espantar, é parte integrante da ideologia colonial. Enquanto grassa o escravismo, seus beneficiários e apologistas classificam os abolicionistas de ‘avessos aos brancos e assassinos’ ”.
Hoje, o país que se arvora campeão da liberdade coonesta os crimes de Israel, perpetua o criminoso bloqueio a Cuba, bombardeia e assassina centenas de milhares no Iraque e no Afeganistão, investe contra o acordo de paz com o Irã, cultua prisões como a de Guantánamo e de Abu Ghraib, da mesma forma como transformava o suplício dos negros pela Ku Klux Klan em cruel espetáculo de massa, anunciado pela imprensa. Da mesma forma que financiou, armou e sustentou Somoza, Pinochet e Papa Doc, entre outros sangrentos marionetes.
Agora, “o uso terrorista da categoria terrorismo chega a seu auge na Palestina” e todos os que são movidos pelo “desejo de resistir à invasão estrangeira”, “de lutar contra os que oprimem e humilham seu país” – ou apenas se solidarizam, como foi o caso dos integrantes da “Frota da Liberdade” – viram “terroristas hostis”. A desinformação é acompanhada pelo rótulo depreciativo, endereçada aos que lutam contra a agressão, seja no Iraque, no Afeganistão ou na Palestina, transformada em “gueto mundial”. “Se o garoto palestino que protesta contra a ocupação jogando pedras é ‘terrorista’, devemos considerar campeão da luta contra o terrorismo o soldado israelense que o mata a tiros?”. Infelizmente, não é um exemplo imaginário, mas de “um traço essencial da tradição colonial”. Talvez isso explique ser o sionismo “a única filosofia política autônoma permitida pelo Terceiro Reich”.
Pelo tratamento dispensado aos integrantes da “Frota da Liberdade”, dá para ter uma ideia do que padecem os milhares de palestinos encarcerados por Israel, inclusive crianças. Na descrição do escritor Ghassan Abdallah, internado na prisão de Ansar-3, no deserto, “a antecâmara do inferno”. Nem mesmo os oficiais israelenses suportavam o seu papel de carcereiros e tinham “necessidade de recorrer aos tranqüilizantes”. Para os palestinos, a “tortura”, o “inferno cotidiano”: “de dia, no verão, chega-se aos 40º, enquanto de noite se pode chegar a 0º”.

Enquanto era obrigado a esconder-se nas ruas de Dresden para escapar da “solução final” que os nazistas reservaram aos judeus, o professor e filólogo Victor Klemperer denunciava o “extraordinário parentesco” e os “profundos pontos em comum” entre o sionismo, fundado por Theodor Herzl e o nazismo. Não por acaso, Herzl é o israelense a quem os vestais da mídia (anti) brasileira queriam que o presidente Lula colocasse flores no túmulo durante sua visita a Jerusalém, tentando imputar inclusive ao governo brasileiro uma suposta “gafe diplomática” por deixar de fazer o que sequer estava  agendado.

“A doutrina da raça de Herzl é a fonte dos nazistas, são eles que copiam o sionismo, não o contrário”, sublinhou Klemperer, mostrando simpatia pela população árabe que se insurge “contra o processo de expropriação e colonização e o ‘destino de índios’ a ela reservado  pelos colonos sionistas”. Com efeito, é o próprio Herz que se refere de modo explícito ao modelo estadunidense de expansão do Far West, e ao extermínio dos peles-vermelhas, a quem literalmente se arrancava  o couro para fazer “rédeas”.

“Caracteriza o sionismo uma palavra inequívoca – “uma terra sem povo para um povo sem terra”. Nas palavras de Herzl: “queremos levar limpeza, ordem e costumes iluminados do Ocidente a esse canto agora  infecto e desolado do Oriente, a esse canto doente”. “Ao estabelecer-se na Palestina, os judeus podem ‘sanar aquela chaga doOriente’. Concluindo: ‘os judeus são o único elemento civilizador  que pode colonizar a Palestina”. Folheando os diários de Herzl, nos encontraremos “diante de um álbum de família do colonialismo e do imperialismo entre os séculos XIX e XX”.

Não por acaso, a Assembleia Geral da ONU decretou em 1975 que “o sionismo é uma forma de racismo e de discriminação racial”. Afirmava a declaração que “a cooperação e a paz internacionais requerem a realização da liberação e da independência nacional, a eliminação do colonialismo e do neocolonialismo, da ocupação estrangeira, do Sionismo, da segregação e da discriminação racial sob todas as suas formas, bem como o reconhecimento da dignidade dos povos e de seu direito à autodeterminação”. Contra esta interpretação se perfilavam  os governos dos EUA, Israel e… da África do Sul, do apartheid, que mantinha encarcerado a Mandela. Com a desaparição do campo socialista, em 1991, esta declaração foi revogada.
É sabido e reconhecido o recurso sistemático de Israel à eliminação física ou ao assassinato de palestinos acusados ou mesmo suspeitos de realizar ações “terroristas”, prática que “recorda os esquadrões da morte aos quais recorreram certos regimes da América Latina”, financiados e treinados pelo governo estadunidense. “Só se pode falar em justiça quando quem julga é um órgão imparcial, que julga a partir não de impressões ou certezas subjetivas, mas de provas obtidas e confirmadas durante um debate com a defesa. Nada disso se verifica quando os aviões e os helicópteros israelenses lançam seus mísseis contra as vítimas designadas”. Na prática, uma “limpeza étnica” na Palestina, “acrescentada às injustiças e humilhações ligadas ao processo de colonização que vem ocorrendo há décadas”.
Quanto ao “caráter escrupulosamente planejado das execuções ou dos assassinatos orquestrados pelo exército israelense”, vale lembrar uma citação de Henry Siegman, ex-chefe executivo do Congresso Judaico Americano: “Foi perguntado ao general Dan Halutz, chefe do Estado Maior de Israel, em 2002, quando dirigia a aviação israelense, o que sentiu quando soube que a bomba de uma tonelada lançada sobre um líder do Hamas tinha matado também nove crianças palestinas – um resultado bastante previsível, dado que a bomba fora lançada sobre um prédio cujos apartamentos eram habitados por civis. Como se sabe, ele respondeu ter sentido em seu avião ‘um leve choque’ no momento em que a bomba caía. (Essa foi a única perturbação que sentiu). Ele acrescentou que, naquela noite, dormiu muito bem”. Resultado: foi promovido a chefe do Estado maior.
Conforme artigo publicado no International Herald Tribune, para “desacreditar” o governo nacionalista de Nasser, em 1954, “agentes recrutados por Israel colocaram bombas nas bibliotecas estadunidenses de Alexandria e do Cairo, fazendo com que os egípcios parecessem culpados”.
O mais difundido jornal israelense noticiou episódios e fotos que esclarecem bem como pensam – e agem – as tropas sionistas: “Uma mostra um soldado israelense com a bota sobre o tórax de um palestino que acabara de ser morto em um campo de pimentões no Gush Katif, ao sul de Gaza. O militar parece imitar um caçador que acabara de abater um animal”. No Canadá, um desertor do exército estadunidense relata que seus “companheiros de arma jogavam futebol com a cabeça de um iraquiano decapitado”.
“O Estado de Israel ampliou suas fronteiras em mais de 50% além das áreas atribuídas ao Estado judeu pela ONU em 1947, enquanto a área destinada aos palestinos já foi reduzida em cerca de 60%, e tudo isso sem contar as colônias e as outras expropriações realizadas por Israel na Cisjordânia”, conforme análise de “conceituados” órgãos de imprensa estadunidense, judeus israelenses ou norte-americanos. E não é tudo: “o furto da terra, que anda ao lado do muro, chega a aproximadamente 12% da Cisjordânia”. Uma realidade “cada vez mais semelhante à da África do Sul do apartheid”, bantustões, formalmente “Estados independentes”, mas de fato sem qualquer autonomia no plano econômico e militar. “A aplicação de tal modelo à Faixa de Gaza e à Cisjordânia permitiria que Israel se mantivesse como ‘Estado judeu’ evitando a ameaça representada pelo rápido crescimento demográfico dos ‘negros’ palestinos e perpetuando a subjugação destes de diferentes formas… Não obstante o ‘desempenho’, Israel continua a ter total controle sobre a Faixa de Gaza e arredores, o espaço aéreo, o fornecimento de água e energia elétrica, a vida e a morte – como demonstram as recorrentes incursões de carros armados e blindados -, os bombardeios, as ‘execuções extrajudiciais’ com seu séquito de ‘danos colaterais’ mais ou menos amplos, tudo decidido de forma soberana por Tel Aviv”.
O entranhamento desta ideologia fascista é visível, estampada no “culto reservado a Baruch Goldstein, ‘o médico colono que em fevereiro de 1994 invadiu a Mesquita de Abraão, em Hebron, e disparou sobre os crentes ajoelhados para rezar’. Morreram 29, enquanto os feridos passaram de uma centena. Em 1997, em honra deste ‘santo’, é publicado um livro: O homem bendito”.
Como jornalista do HP visitei em 2001 os territórios palestinos ocupados. Lembro dos olhos das crianças como o alvo principal das balas de aço israelenses, revestidas de borracha para não matar, “apenas” para servir de alerta aos jovens braços que jogavam pedras contra os tanques nazi-israelenses na segunda Intifada. Da fila de crianças nos hospitais no aguardo de um visto dos sionistas para poderem viajar e serem operadas na Alemanha, já que a pista de seu aeroporto havia sido tomada por crateras após os bombardeios. De um senhor baleado na cabeça enquanto conversava a meu lado na cidade de Hebron, dos hospitais repletos de mutilados pela covardia, do esgoto correndo a céu aberto em Gaza, das estradas bloqueadas na Cisjordânia, do roubo da água, do assalto às terras. De lá para cá, a segregação, como o muro do apartheid, só cresceu… Como a consciência e o repúdio internacional à ocupação.
Encerro com as palavras de Ho Chi Minh. Em 1924, quando era tão somente mais um jovem in

História de um conflito

[Texto sugerido pelo sindicalizado Marcelo Roimicher, servidor do TRF.]

Paulo Geiger

A maior parte da mídia internacional, um grande número de formadores de opinião, políticos, intelectuais, líderes de estados e de nações, líderes religiosos, organizações e instituições não-governamentais, governamentais e internacionais, pessoas comuns, movidos por intencional má-fé (no sentido de apresentar versões que lhe interessam como se fossem fatos), ou desinformação, ou desaviso, reduzem toda a essência do conflito palestino-israelense em sua fase atual à simples questão de oprimidos (os palestinos) em luta contra o opressor (Israel), que ocupa seu território e lhe impede o livre exercício de seus direitos de nação. À luz dessa redução simplista e maniqueísta, desenham-se os perfis do mocinho e do bandido. Toda ação palestina, seja qual for, inclusive terror sanguinário e violência contra civis indefesos, é vista como parte de uma luta justa, na qual os fins justificam os meios. Todas as operações de Israel em sua luta contra o terror são vistas como crimes de guerra, violação dos direitos humanos. Mesmo os que condenam o terror como método de luta nacional vêem-no como conseqüência inevitável da ocupação, e nesta a causa do conflito, aúnica causa do conflito. Ou seja, com sua ‘política militarista’, com sua ‘opressão’, com sua negação dos ‘direitos dos palestinos’ pela força, Israel seria o causador e único agente do conflito, cabendo a ele solucioná-lo com a retirada incondicional, propiciando o estabelecimento do estado palestino.

Considerando que a ocupação realmente existe, e que ela contraria de fato a aspiração dos palestinos a um estado próprio, aspiração que, independentemente de sua validade ou justificação histórica, assumiu inequivocamente o status de um direito internacionalmente reconhecido, essa maneira de ver e de concluir poderia parecer autêntica, não fosse a grande distorção, proposital ou desavisada, de ‘congelar’ a essência do conflito em seu momento atual. Proposital ou desavisadamente, não se percebe a ocupação como uma das fases – longa embora – de um complexo conflito que perdura por mais de 80 anos, conflito que, como este artigo demonstrará adiante, não foi desencadeado nem alimentado em nenhum momento pela recusa judaica, sionista ou israelense de admitir e aceitar a instalação de mais um entre os muitos estados árabes do Oriente Médio e da África – um estado dos árabes que habitavam a antiga Palestina –, mas pela recusa destes, e de todo o mundo árabe, de aceitar, ao lado desse estado dos árabes palestinos, a existência de um único estado judaico no único lugar no mundo em que poderia existir.

A compreensão de que a ocupação é apenas uma fase desse longo conflito, exigindo soluções muito mais complexas do que a simples retirada de Israel – que não levaria, por si mesma, ao fim do conflito –, exige o conhecimento de todo o processo histórico que levou a ela, o que não cabe nos espaços das agências de notícias e dos comentaristas de plantão. Muito mais simples e vendáveis são as imagens de atentados sanguinários, de meninos atirando pedras em tanques, soldados atirando em meninos, helicópteros atingindo jipes e casas, ‘luta de libertação’ contra militares opressores, a emblemação caricata de Sharon versus Arafat, as frases feitas sobre repressão, ‘massacres’, violações de direitos. A conseqüência não é só desinformação, mas a consolidação de uma opinião, de uma atitude, que acaba contaminando decisões e medidas anti-israelenses, sem falar na munição farta que se oferece ao anti-sharonismo, mas que logo se estende ao anti-israelismo, ao anti-sionismo e ao anti-semitismo.

Apenas como exemplo desse gatilho rápido movido a distorção de informação e reforçado por preconceitos e pré-conceitos: a TV mostrou ao mundo inteiro como um oficial norueguês que chefiava uma comissão da ONU, depois de um breve passeio pelas ruínas dos quarteirões de Jenin onde se travara uma batalha entre as forças de Israel e palestinos armados, na qual morreram 23 israelenses e 56 palestinos, ainda sob a falsa denúncia, veiculada por palestinos – e mais tarde refutada pela própria ONU –, de um suposto ‘massacre’ de centenas de pessoas, declara que “indubitavelmente ali ocorrera um crime de guerra”. Depois da Segunda Guerra Mundial, um tribunal internacional reunido em Nuremberg para julgar criminosos de guerra nazistas, levou semanas apresentando testemunhas, documentos, filmes, com pleno direito de defesa dos acusados, para concluir que houvera crimes de guerra e para condenar os acusados, e ainda absolver alguns. O norueguês e sua comissão precisou de alguns minutos para chegar ao veredicto e anunciá-lo ao mundo.

Este artigo destina-se a preencher essa lacuna de informação objetiva sobre a história do conflito, para permitir localizar a ocupação que caracteriza a situação atual não como sua causa, mas como sua conseqüência, e entender que a recusa árabe de aceitar a existência de Israel, e não uma recusa sionista e israelense de aceitar um estado palestino, é que constitui a raiz conceitual e histórica que o engendrou e que o alimenta.

***

A origem e única causa do conflito do Oriente Médio está ligada à questão do direito histórico dos judeus de terem uma pátria no lugar em que se formaram como nação, e que alimentou durante 2 mil anos seu sonho de retorno, sua percepção de convergência e, portanto sua unidade como povo em busca de um futuro comum. Visto erroneamente por muitos como apenas uma religião, o judaísmo é na verdade um amálgama das identidades de um povo: uma identidade histórica grupal (judaísmo parte de e implica em pertinência ao grupo), uma identidade espiritual – forjada na religião, mas extensiva a conceitos filosóficos, éticos e comportamentais – e uma identidade de destino, destino que seria o ‘retorno’ á identidade inicial em Sion, presente na gênese do povo e da nação judaica e parte importante de seu óntos e de seu ethos. O retorno a Sion, portanto, sempre foi parte da própria percepção do povo judeu da essência de seu ser, e fator decisivo de sua visão de redenção pela volta às origens.

O movimento sionista moderno, criado no fim do século XIX, alimentado pelos ideais libertários da emancipação, dos direitos do homem e das nações, trouxe para a categoria do direito internacional o sonho milenar de redenção dos judeus. Assim como todos os povos, o povo judeu teria direito à autodeterminação, e o novo movimento sionista foi criado como instrumentador dessa autodeterminação, mais adequado, em sua conceituação e métodos, à modernidade do que os sonhos messiânicos e o misticismo da escatologia judaica. O sionismo moderno é a bimilenar tensão do retorno traduzida na linguagem dos novos tempos, reconhecível por todos os povos, equiparada aos direitos de todos os povos. Visava a construir uma pátria para um povo sem pátria e nela estabelecer um estado-nação para uma nação histórica, na terra que era o berço de sua existência e o porto visado de sua longa travessia. Em 51 anos o sionismo realizou essa tarefa, viabilizada politicamente e endossada, afinal, pela decisão majoritária das nações organizadas de todo o mundo1. O Estado de Israel, que o povo judeu vê como um direito histórico da nação de Israel, surgiu como um estado legitimamente criado pela consciência universal desse direito.

A Palestina nunca foi, ao longo dos 2.000 anos, desde que deixara de ser um estado judaico soberano (com a destruição do segundo Templo, em 70, e a derrota final para os romanos, em 135), estado de nenhum outro povo ou nação. Passou de mão em mão, foi varrida por guerras de conquistas e reconquistas, mas nenhuma consciência política de pertinência à terra e a seu destino substituiu a que os judeus levaram consigo para a Diáspora e de lá a exercitaram, sonhando com a volta a Sion. Mas, no curso de uma das conquistas, a conquista árabe, que durou cerca de quatrocentos anos (do século VII ao século XI), uma população de camponeses e pequenos comerciantes árabes muçulmanos lá se estabeleceu. Aos poucos tornaram-se majoritários, mas nunca aspiraram a transformar essa predominância demográfica em fato político. Não reivindicaram soberania em nenhum dos momentos das seguidas ocupações (a partir do século XI) dos turcos seldjucos, cruzados, mamelucos, e turcos otomanos2. Foi essa presença física de uma população árabe de cerca de 700 mil pessoas no território que a ONU destinara ao Estado judaico que serviu de pretexto para a recusa árabe em aceitar a resolução.

A proposta sionista de um estado nacional judaico na Palestina nunca se baseara na exclusão da população árabe local. A imigração judaica a partir dos fins do século XIX estabelecera-se em terras compradas aos árabes e em terras devolutas – terrenos pedregosos ou pântanos infestados de malária –, que foram redimidas para a agricultura. Aos poucos a população judaica crescera e criara uma infra-estrutura econômica e social que seriam as bases para o futuro estado. Nas duas primeiras décadas do século XX, líderes árabes de países vizinhos, como o emir Faiçal e o rei Abdallah, em sua luta pela libertação do colonialismo francês e inglês, viam com bons olhos o estabelecimento judaico na Palestina, e aceitaram a idéia de uma nação judaica ao lado das nações árabes independentes que surgiriam na região. A frustração que lhes foi imposta pelas potências coloniais acarretou o rompimento com essa idéia, e uma oposição ferrenha a ela, que redundou no conflito que perdura até hoje3. A partir daí, não foram raros choques violentos entre as comunidades árabe e judaica, insuflados pelos líderes árabes dos países vizinhos, que atingiram em alguns momentos (1920, 1936) as proporções de um quase pogrom.

O movimento sionista e o establishment judaico na Palestina, por outro lado, tinham a consciência de que a realização nacional judaica em Erets Israel e as aspirações nacionais dos árabes não eram excludentes. Entenda-se que a Palestina de então compreendia terras em ambas as margens do rio Jordão, ou seja, os atuais territórios de Israel, Cisjordânia, Jordânia e Gaza. Essa foi a Palestina que a Liga das Nações, após a Primeira Guerra Mundial, outorgou à responsabilidade mandatária da Inglaterra, com o fim precípuo de lá propiciar a criação de um lar nacional para o povo judeu. Um dos primeiros atos dos ingleses, no entanto, ainda em 1922, foi entregar a margem oriental do Jordão, a Transjordânia, à família haxemita do rei Abdallah, bisavô do atual rei da Jordânia, para que lá se estabelecesse um reino árabe soberano. O movimento sionista aceitou a idéia, convencido de que, realizada assim a aspiração nacional dos árabes da Palestina, seria mais fácil partir para a realização nacional judaica no que restara da Palestina, a margem ocidental.

Mas a oposição dos árabes não arrefeceu, demonstrando que ela não partia do temor de que a presença judaica e suas aspirações nacionais pudessem prejudicar as suas próprias, mas sim de sua recusa em aceitar in limine qualquer realização nacional judaica na Palestina. Os ataques aos judeus continuaram, até que, em 1937, uma comissão internacional, Comissão Peel, chegou à Palestina – agora só a margem ocidental – para estudar a situação e sugerir uma solução. A solução proposta foi uma segunda partilha: dividir o que restara da Palestina entre os dois povos. De novo os judeus aceitaram, de novo a recusa árabe foi peremptória. A proposta da comissão Peel evoluiu para a proposta afinal apresentada na ONU em 1947, e aprovada por grande maioria na Assembléia Geral.

Os judeus da Palestina e do mundo dançaram de alegria nas ruas com a solução da Partilha; os árabes prometeram um banho de sangue, e começaram a atacar os judeus ainda antes da saída dos ingleses. No dia em que estes arriaram o Union Jack e embarcaram no último navio, 14 de maio de 1948, o Comitê Nacional judaico proclamou o estabelecimento do Estado de Israel no território que lhe fora destinado pela ONU, e no mesmo dia os exércitos de 5 países árabes invadiram o recém-criado estado. No decorrer da guerra, dos cerca de 740 mil árabes que vivam nos territórios do novo estado, entre 580.000 o e 650.000 o abandonaram, quer por pressão das forças invasoras, que os estimularam a fazê-lo prometendo que retornariam depois de sua vitória na guerra, quer por medo, quer por terem sido expulsos pelas forças israelenses4. A maioria desses árabes não foram absorvidos nos países árabes vizinhos, sendo tratados como refugiados, em acampamentos precários, sustentados em parte por recursos da ONU e dos países árabes. Foram, assim, mantidos em condições precárias, eles e seus descendentes, não por razões humanitárias, mas – até hoje –, como um instrumento de pressão política e moral sobre Israel, mesmo tendo sido o problema criado por uma guerra que os próprios árabes haviam desencadeado. Por outro lado, numa situação simétrica, em conseqüência do conflito um número equivalente de judeus (mais de 600.000) foram obrigados a abandonar às pressas, com a roupa do corpo, os países árabes nos quais viviam durante gerações, como o Iraque, a Síria, o Iêmen, o Marrocos, o Egito, a Argélia, a Líbia, o Líbano. A grande maioria foi levada a Israel em operações especiais, praticamente dobrando em um ano a população do país. Ao contrário do tratamento dispensado aos refugiados árabes, com grande esforço e sacrifício, depois de tempos difíceis em acampamentos (maabarot), foram totalmente absorvidos pela sociedade israelense. A Declaração de Independência de Israel confirmava a visão não-excludente do sionismo sobre os direitos dos dois povos, conclamando os árabes de Israel, da Palestina e dos países da região a viverem em paz com o novo estado, para juntos construírem uma era de progresso e justiça no Oriente Médio.

O armistício de 1949 estabeleceu as fronteiras – reconhecidas internacionalmente – entre o estado de Israel e o território destinado ao estado dos árabes da Palestina, este dividido entre a Cisjordânia e a faixa de Gaza. No entanto, durante os 18 anos e meio em que estes territórios estiveram à disposição dos árabes para isso, nenhum estado palestino foi estabelecido. A questão árabe não era – como nunca fora – somente a questão do direito nacional dos árabes da Palestina de terem seu estado. A questão árabe era a negação de qualquer direito judaico a uma afirmação nacional, ou seja, a um estado judaico. A Transjordânia anexou a Cisjordânia, criando o reino da Jordânia. O Egito anexou a faixa de Gaza. Não interessava criar um estado palestino e com isso esvaziar o conteúdo essencial da visão estratégica árabe: uma Palestina árabe-muçulmana integral, sem Israel, sem direitos nacionais judaicos. Propositalmente confundindo identidade nacional com religião, essa Palestina árabe era chamada de ‘estado laico e democrático’, como se laicos e democráticos fossem os estados árabes existentes, como se Israel fosse um estado teocrático e seu judaísmo se restringisse à religião, como se democracia não existisse no único estado democrático de toda a região. Os refugiados árabes foram mantidos como peões da ‘legalidade’ da causa árabe; o não-reconhecimento de Israel, o boicote econômico a Israel, depois o terrorismo contra Israel e os israelenses, foram as armas invocadas e aplicadas a partir do primeiro dia após o armistício.

Em 1964, ainda quando Cisjordânia e Gaza eram territórios sob controle árabe, numa conferência pan-árabe foi criada a OLP, Organização de Libertação da Palestina, sob a chefia de Iasser Arafat, o líder da principal organização terrorista anti-israelense, a El-Fatah . A Palestina que devia, então, ser libertada, era a das terras do Estado de Israel em suas fronteiras internacionalmente reconhecidas. Na mesma conferência foi aprovada a Carta Palestina, que preconizava explicitamente a extinção, por via armada, do Estado de Israel e de sua população. Apenas os que lá viviam antes de 1917 teriam permissão de ficar5. Amplamente ‘argumentada’, essa decisão invocava que só a aspiração nacional dos árabes da Palestina era legítima, pois os judeus não eram um povo e não tinham direito sobre aquela terra. A Carta Palestina foi o instrumento ideológico da luta árabe pela eliminação de Israel e estabelecimento de um estado palestino em toda a Palestina até pelo menos meados da década de 1990, não deixando dúvida quanto a seus objetivos estratégicos. Seus instrumentos já foram mencionados: boicote, terrorismo, ameaças, pressão política através de uma ONU reconfigurada pelo terceiro-mundismo e do apoio do bloco soviético, em sua guerra fria com o bloco ocidental.

Em 1967, três anos após ter sido exarada a Carta Palestina, talvez insuflados por falsa denúncia soviética de que Israel concentrava tropas e preparava ataque contra a Síria6, o Egito e a Síria, e logo depois a Jordânia, mobilizaram-se para o que denominaram ser a guerra decisiva contra Israel, visando a seu extermínio. Tropas egípcias e sírias, fortemente armadas pelos soviéticos, movimentaram-se para as fronteiras com Israel. O Egito pediu e obteve imediatamente de U-Thant, secretário-geral da ONU, a retirada das tropas da ONU que garantiam a paz no Sinai desde a guerra de 1956, e bloqueou o estreito de Tiran aos navios israelenses, única saída de Israel para o oceano Índico, via de seu comércio com a Ásia e a África. Mensagens irradiadas do Cairo, em hebraico, avisavam os israelenses de que eles seriam degolados e lançados ao mar. Apesar da ameaça imediata, apesar do bloqueio ilegal, nem a ONU nem qualquer iniciativa internacional foram mobilizadas para encontrar uma solução pacífica. Em 5 de junho, Israel atacou as forças egípcias, e logo depois as sírias, destruiu a maior parte de seus efetivos militares e ocupou o Sinai e as colinas de Golan. Apesar dos pedidos de Israel ao rei Hussein para que se mantivesse fora do conflito, o exército jordaniano atacou Israel. Em três dias Israel ocupou a Cisjordânia, inclusive a cidade-velha de Jerusalém. Em seis dias a guerra terminara, e Israel ocupava militarmente todo o Sinai, a faixa de Gaza, a Cisjordânia e o planalto de Golan.

No dia imediato ao cessar-fogo, o governo israelense de Levi Eshkol propôs a devolução dos territórios ocupados por uma paz definitiva. A resposta árabe veio da Conferência de Cartum, no Sudão: não a negociações com Israel, não ao reconhecimento de Israel, não à paz com Israel. A partir de então, a ocupação desses territórios tornou-se um fato político bem caracterizado pelo direito internacional, como conseqüência de uma guerra e no aguardo do contrato político que desse fim à guerra, contrato que a não-negociação, o não-reconhecimento e o não à paz tornaram inexeqüível. O terrorismo, principalmente atentados contra civis inocentes, assumiu proporções cada vez maiores, não só em Israel, como contra israelenses e judeus em qualquer parte do mundo. Mas no momento em que, entre 1977 e 19797, o Egito aceitou as negociações que haviam sido propostas por Israel ainda em 1967, acabou sendo assinado o primeiro tratado de paz entre Israel e um país árabe, e o território ocupado, o Sinai, foi integralmente devolvido.

O presidente egípcio signatário da paz foi combatido por todo o mundo árabe, e afinal assassinado. Boicote, terrorismo e recusa de negociar, o apego árabe à visão estratégica da eliminação de Israel, continuaram a impedir uma solução negociada e definitiva que permitisse a devolução de territórios num contexto de paz, única alternativa possível para essa devolução. Como poderia Israel entregar territórios para que se constituísse um estado que jurara eliminá-lo do mapa e dizimar sua população, com fronteiras a 16km de seu núcleo mais densamente povoado?

Novas esperanças surgiram em 1994, quando israelenses e palestinos, primeiro em Madrid, depois em Oslo, pareciam concordar quanto a haver chegado o momento de negociar uma solução de convivência que levasse a uma paz definitiva e ao estabelecimento do estado palestino nos territórios a serem devolvidos por Israel, o que implicou, ao menos oficialmente, o arquivamento, por exigência de Israel, da Carta Palestina de 1964. As negociações, depois de mais de setenta anos de antagonismo, ódio e incompreensão, de sangue e lágrimas, pareciam afinal, mesmo aos trancos e barrancos, com fases de paralisia e de retomada, estar se aproximando de um desfecho promissor, quando em 2000 se reuniram, de novo em Camp David, o primeiro-ministro Ehud Barak chefiando a delegação israelense, Iasser Arafat, presidente da Autoridade Palestina chefiando a delegação palestina, e o presidente norte-americano Bill Clinton como host e mediador.

O que aconteceu em Camp David, depois das gentilezas televisadas do ‘you first, please’, não tem ainda relato oficial. A síntese das versões indica que havia sobre a mesa uma proposta israelense que os próprios israelenses consideraram ‘generosa’, e que, objetivamente, oferecia: a devolução de c. 95% das terras da Cisjordânia, com negociação dos 5% restantes (permutas, compensações); estabelecimento do governo palestino em Jerusalém, que seria, assim, também a capital palestina, mas sem dividir a cidade; estabelecimento de um estado palestino nesses territórios, em condições de paz contratual com Israel. O que Israel seguramente não aceitou foi a possibilidade de ‘retorno’ de quase 4 milhões de descendentes de refugiados palestinos para dentro de Israel, e não do estado palestino, o que afetaria decisivamente o equilíbrio demográfico do país, transformando-o em pouco tempo, pela via demográfica, no estado palestino integral preconizado pela Carta Palestina aposentada.

Quais os motivos de Arafat, então, para abandonar o quase-acordo de Camp David e desfechar a nova intifada, que em dois anos levou a uma situação de renovado e trágico impasse? Alega-se que havia má-fé israelense, pois o cronograma de Oslo estava sendo descumprido. Alega-se que a visita de Sharon ao Monte do Templo, diante da mesquita do Domo da Rocha, foi uma provocação israelense. Alega-se que as condições de Israel desrespeitavam o que havia sido combinado em Oslo. Quaisquer que sejam as alegações, mesmo que sinceramente Arafat e os palestinos estejam convencidos de que são verdadeiras, elas seriam motivo suficiente para interromper uma negociação que chegara tão perto de um acordo e voltar à estaca zero da violência, do impasse, do ódio? Sharon não representava o governo de Israel, tinha o direito de estar ali como cidadão de Israel, e além do mais, a visita fora comunicada e combinada com as autoridades palestinas. Não-cumprimento de cronogramas é uma questão operacional, e não conceitual. E as condições de uma paz estavam em negociação. As negociações Beigin-Sadat-Carter passaram por crises, mas era realmente vontade das partes chegar a um acordo. Então é válido perguntar: Arafat queria mesmo chegar a um acordo? Se queria, por que recuou?

Podem-se aventar três hipóteses:

a) Arafat não conseguiu reunir coragem para vencer as pressões dos palestinos mais radicais, que nunca abandonaram a estratégia da Carta Palestina e recusam a paz e convivência com Israel8. Não quis ou não pôde enfrentar sua própria gente, como fizera Barak, para tentar convencê-la de que só com concessões mútuas se chegaria a um acordo que seria apenas o início de um longo processo de paz e desarmamento.

b) Arafat não quis aceitar uma resolução que não contemplasse 100% de suas exigências, inclusive a volta dos refugiados e a divisão de Jerusalém, por exemplo. O temor de um resultado negociado que exigisse compromissos dos palestinos o teria o levado ao confronto, na esperança de conseguir, sem compromissos, mais do que aquilo que já estava a seu alcance com uma simples assinatura.

c) Os palestinos nunca quiseram realmente uma paz definitiva com Israel que levasse a seu reconhecimento e ao enterro definitivo dos objetivos estratégicos da Carta Palestina, objetivos para cuja obtenção o estado palestino negociado seria apenas uma etapa (como definido na Carta). A exigência da ‘volta’ de milhões de refugiados para dentro de Israel, e não do novo estado palestino, parece ser um indício consistente dessa visão, exigência muito mais voltada para o enfraquecimento e a inviabilização de Israel como estado judaico do que para o fortalecimento e a viabilização do estado palestino.

O que se seguiu, os altos e baixos da violência, com os altos cada vez mais freqüentes, põem à prova, uma vez mais, as intenções verdadeiras dos dois lados. Independentemente de qual a tendência política do governo de Israel num dado momento (nos últimos sete anos Israel teve cinco líderes de estilos e concepções não idênticas: Rabin, Peres, Netaniahu, Barak e Sharon), ou qual venham a ser os governos israelense e palestino após as próximas eleições em ambos os campos, as alternativas para o Oriente Médio não mudaram, e se resumem a quatro possibilidades:

a) vitória total da visão dos extremistas palestinos (e, aparentemente, de boa parte doestablishment palestino atual), com a extinção de Israel como estado judaico e, no pior dos casos, eliminação ou expulsão da maior parte de sua população

b) vitória total da visão nacionalista extremista israelense, que se opõe ao estabelecimento de qualquer estado palestino a oeste do Jordão, mesmo em convivência pacífica com o estado judaico; isso exigiria ou a continuação da ocupação, ou a expulsão ou a eliminação da população palestina;

c) continuação indefinida do impasse e do conflito, para os palestinos levando ao assassinato e ao terror metódicos como forma de desestabilizar a sociedade judaica de Israel, e afinal conduzindo à hipótese a); para os extremistas israelenses, repressão aos palestinos e criação de fatos consumados (mais ocupação, mais colônias) que levariam, afinal, à hipótese b); para ambos, a continuação das mortes, da insegurança quanto ao futuro, do desgaste econômico;

d) acordo de convivência entre dois estados para dois povos, que seria o início de um processo de paz que levaria, com o tempo, ao desarmamento psicológico, ao fim do ódio, aos benefícios da cooperação e, por fim, à paz verdadeira, que, segundo Rui Barbosa, é aquela que emana do coração dos povos.

Por mais irreal que pareça hoje esta hipótese

d), diante do clima de ódio e conflito exacerbado, diante da desconfiança, diante da quase certeza de que são muitos os fatores que trabalham conscientemente contra ela, diante da evidência de que o objetivo estratégico dos palestinos – e seu simétrico de alguns setores israelenses – ainda é a eliminação de Israel, por mais utópica que essa hipótese d) possa parecer, nenhuma das outras lhe é preferível como caminho para o futuro, seja para que lado for. Para viabilizá-la, os israelenses teriam de assumir que, independentemente de arrazoados de natureza histórica ou religiosa, de uma alegada, e talvez tecnicamente correta, a-historicidade de uma nação árabe palestina, reivindicada como base para um estado palestino árabe, o fato é que formou-se uma ‘identidade palestina’ reconhecida internacionalmente, que é tão fato consumado quanto a presença judaica – independentemente de sua razão histórica – e o estado judaico. E os palestinos, qualquer que seja o nível de seu radicalismo, terão de se convencer de que o estado judaico, baseado no inegável direito histórico do povo judeu, é legítimo e irreversível. E o mundo terá de se convencer de que, nesse contexto, nenhuma retirada de Israel pode ser exigida fora do contexto de um acordo de paz que reconheça a legitimidade de ambas as aspirações e elimine de uma vez por todas o objetivo estratégico de extinguir o estado judaico.

Resta saber quanta dor e quanto sangue ainda serão necessários para abrir essa estrada, o que seria melhor e mais rapidamente conseguido pela coragem e lucidez de romper com o passado e com velhos conceitos. O sionismo construiu sua visão de uma nação judaica restabelecida com base no direito dos judeus de serem uma nação como todas as outras, o que inclui também seu respeito aos direitos de todas as outras. Ele ainda espera que se ouçam – do outro lado desse conflito – vozes lúcidas que entrem em ressonância com essa idéia, para criar um novo ciclo, agora virtuoso, de entendimento e convivência pacífica.

1 A Assembléia Geral da ONU, presidida por Osvaldo Aranha, decidiu, por 33 votos contra 13, a partilha da Palestina em um estado judaico e um árabe em 29 de novembro de 1947. Votaram a favor, pela primeira vez, tanto o chamado ‘bloco ocidental’ quanto os países socialistas.

2 Segundo Marcos Margulies, Israel, origem de uma crise, sem data, DIFEL, Rio de Janeiro.

3 O emir Feiçal, por exemplo, em seus entendimentos com Chaim Weizmann, em 1915, condicionara seu apoio ao estabelecimento da nação judaica na Palestina ao apoio britânico às aspirações nacionais dos árabes, que foi prometido e não cumprido.

4 Estudos mais detalhados da origem dos refugiados árabes da Palestina têm demonstrado que, embora tenha havido em alguns casos ‘estímulo’ israelense à sua fuga, na maior parte dos casos houve, principalmente no início, ainda antes da guerra, até mesmo um esforço dos israelenses para convencê-los a não abandonar suas casas; quando veio a invasão e os combates se acirraram, esse esforço diminuiu, e os israelenses ‘acomodaram-se’ com o êxodo. (v. Margulies, Israel, origem de uma crise, pp 190-195, e Paul Johnson, História dos judeus, Imago, Rio de Janeiro, 1989, p. 525)

5 Ano da Declaração Balfour, na qual a Inglaterra, que para isso receberia o mandato da Palestina da Liga das Nações, se comprometia com a criação de um Lar Nacional Judaico, sem prejuízo dos direitos dos judeus no mundo e dos árabes da Palestina, exatamente a concepção ideológica do sionismo.

6 A ONU propôs uma inspeção na fronteira para verificar a veracidade da acusação soviética. Israel aceitou, a Síria não. Ante o reiterado protesto soviético contra a ‘concentração de tropas’ Israel convidou o embaixador soviético a visitar a fronteira. O embaixador recusou.

7 Em novembro de 1977 Anuar Sadat, numa iniciativa que assombrou o mundo, visitou Israel e propôs o fim da guerra e o mútuo reconhecimento. Em 1978 em Camp David, e em 1979 no eixo Jerusalém-Cairo, Menachem Beigin – um líder da direita israelense! –, Anuar Sadat e o presidente norte-americano Jimmy Carter negociaram a paz entre Israel e o Egito, assinada em 1979. Em 1982, como Israel prometera em 1967, completava-se a devolução de todo o Sinai ao Egito.

8 A violência dos recentes atentados suicidas, a celebração dos palestinos nas ruas a cada assassinato de israelenses, a continuação da educação das crianças nas escolas e nas organizações terroristas para o ódio e para o extermínio de judeus, a oposição explícita a qualquer processo de paz, continuam a ser expressões e alimentadoras do conflito por parte das facções extremistas, sem que a representação oficial palestina, chefiada por Arafat, queira ou possa impedi-la, parecendo muitas vezes mesmo aliar-se a elas.

OUTRA OPINIÃO

O caráter essencialmente nazista da política de Israel

Nem bem terminei de ler “A linguagem do Império – Léxico da ideologia estadunidense”, de Domenico Losurdo (Boitempo, 306 páginas), o terrorismo de Estado de Israel ceifa a vida de dezenas de ativistas na madrugada dentro de um barco, alveja muitos e prende como criminosos centenas de homens e mulheres que, navegando em águas internacionais, insistiam em levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza, mantida sob bloqueio criminoso, ilegal e imoral pelos sionistas.

Como se tivesse feito um livro sob encomenda para explicar o ocorrido, o autor questiona: “o caráter essencialmente ‘fascista’ e até mesmo ‘nazista’ da política de Israel explica tudo isso?”.
Se “a ideologia da guerra que se desenvolve nos nossos dias é a linguagem do império”, a manipulação dos meios de comunicação tem sido historicamente uma arma dos que procuram justificar suas práticas genocidas. “Essa inversão dos lados de agredidos e agressores, oprimidos e opressores, não deve espantar, é parte integrante da ideologia colonial. Enquanto grassa o escravismo, seus beneficiários e apologistas classificam os abolicionistas de ‘avessos aos brancos e assassinos’ ”.
Hoje, o país que se arvora campeão da liberdade coonesta os crimes de Israel, perpetua o criminoso bloqueio a Cuba, bombardeia e assassina centenas de milhares no Iraque e no Afeganistão, investe contra o acordo de paz com o Irã, cultua prisões como a de Guantánamo e de Abu Ghraib, da mesma forma como transformava o suplício dos negros pela Ku Klux Klan em cruel espetáculo de massa, anunciado pela imprensa. Da mesma forma que financiou, armou e sustentou Somoza, Pinochet e Papa Doc, entre outros sangrentos marionetes.
Agora, “o uso terrorista da categoria terrorismo chega a seu auge na Palestina” e todos os que são movidos pelo “desejo de resistir à invasão estrangeira”, “de lutar contra os que oprimem e humilham seu país” – ou apenas se solidarizam, como foi o caso dos integrantes da “Frota da Liberdade” – viram “terroristas hostis”. A desinformação é acompanhada pelo rótulo depreciativo, endereçada aos que lutam contra a agressão, seja no Iraque, no Afeganistão ou na Palestina, transformada em “gueto mundial”. “Se o garoto palestino que protesta contra a ocupação jogando pedras é ‘terrorista’, devemos considerar campeão da luta contra o terrorismo o soldado israelense que o mata a tiros?”. Infelizmente, não é um exemplo imaginário, mas de “um traço essencial da tradição colonial”. Talvez isso explique ser o sionismo “a única filosofia política autônoma permitida pelo Terceiro Reich”.
Pelo tratamento dispensado aos integrantes da “Frota da Liberdade”, dá para ter uma ideia do que padecem os milhares de palestinos encarcerados por Israel, inclusive crianças. Na descrição do escritor Ghassan Abdallah, internado na prisão de Ansar-3, no deserto, “a antecâmara do inferno”. Nem mesmo os oficiais israelenses suportavam o seu papel de carcereiros e tinham “necessidade de recorrer aos tranqüilizantes”. Para os palestinos, a “tortura”, o “inferno cotidiano”: “de dia, no verão, chega-se aos 40º, enquanto de noite se pode chegar a 0º”.

Enquanto era obrigado a esconder-se nas ruas de Dresden para escapar da “solução final” que os nazistas reservaram aos judeus, o professor e filólogo Victor Klemperer denunciava o “extraordinário parentesco” e os “profundos pontos em comum” entre o sionismo, fundado por Theodor Herzl e o nazismo. Não por acaso, Herzl é o israelense a quem os vestais da mídia (anti) brasileira queriam que o presidente Lula colocasse flores no túmulo durante sua visita a Jerusalém, tentando imputar inclusive ao governo brasileiro uma suposta “gafe diplomática” por deixar de fazer o que sequer estava  agendado.

“A doutrina da raça de Herzl é a fonte dos nazistas, são eles que copiam o sionismo, não o contrário”, sublinhou Klemperer, mostrando simpatia pela população árabe que se insurge “contra o processo de expropriação e colonização e o ‘destino de índios’ a ela reservado  pelos colonos sionistas”. Com efeito, é o próprio Herz que se refere de modo explícito ao modelo estadunidense de expansão do Far West, e ao extermínio dos peles-vermelhas, a quem literalmente se arrancava  o couro para fazer “rédeas”.

“Caracteriza o sionismo uma palavra inequívoca – “uma terra sem povo para um povo sem terra”. Nas palavras de Herzl: “queremos levar limpeza, ordem e costumes iluminados do Ocidente a esse canto agora  infecto e desolado do Oriente, a esse canto doente”. “Ao estabelecer-se na Palestina, os judeus podem ‘sanar aquela chaga doOriente’. Concluindo: ‘os judeus são o único elemento civilizador  que pode colonizar a Palestina”. Folheando os diários de Herzl, nos encontraremos “diante de um álbum de família do colonialismo e do imperialismo entre os séculos XIX e XX”.

Não por acaso, a Assembleia Geral da ONU decretou em 1975 que “o sionismo é uma forma de racismo e de discriminação racial”. Afirmava a declaração que “a cooperação e a paz internacionais requerem a realização da liberação e da independência nacional, a eliminação do colonialismo e do neocolonialismo, da ocupação estrangeira, do Sionismo, da segregação e da discriminação racial sob todas as suas formas, bem como o reconhecimento da dignidade dos povos e de seu direito à autodeterminação”. Contra esta interpretação se perfilavam  os governos dos EUA, Israel e… da África do Sul, do apartheid, que mantinha encarcerado a Mandela. Com a desaparição do campo socialista, em 1991, esta declaração foi revogada.
É sabido e reconhecido o recurso sistemático de Israel à eliminação física ou ao assassinato de palestinos acusados ou mesmo suspeitos de realizar ações “terroristas”, prática que “recorda os esquadrões da morte aos quais recorreram certos regimes da América Latina”, financiados e treinados pelo governo estadunidense. “Só se pode falar em justiça quando quem julga é um órgão imparcial, que julga a partir não de impressões ou certezas subjetivas, mas de provas obtidas e confirmadas durante um debate com a defesa. Nada disso se verifica quando os aviões e os helicópteros israelenses lançam seus mísseis contra as vítimas designadas”. Na prática, uma “limpeza étnica” na Palestina, “acrescentada às injustiças e humilhações ligadas ao processo de colonização que vem ocorrendo há décadas”.
Quanto ao “caráter escrupulosamente planejado das execuções ou dos assassinatos orquestrados pelo exército israelense”, vale lembrar uma citação de Henry Siegman, ex-chefe executivo do Congresso Judaico Americano: “Foi perguntado ao general Dan Halutz, chefe do Estado Maior de Israel, em 2002, quando dirigia a aviação israelense, o que sentiu quando soube que a bomba de uma tonelada lançada sobre um líder do Hamas tinha matado também nove crianças palestinas – um resultado bastante previsível, dado que a bomba fora lançada sobre um prédio cujos apartamentos eram habitados por civis. Como se sabe, ele respondeu ter sentido em seu avião ‘um leve choque’ no momento em que a bomba caía. (Essa foi a única perturbação que sentiu). Ele acrescentou que, naquela noite, dormiu muito bem”. Resultado: foi promovido a chefe do Estado maior.
Conforme artigo publicado no International Herald Tribune, para “desacreditar” o governo nacionalista de Nasser, em 1954, “agentes recrutados por Israel colocaram bombas nas bibliotecas estadunidenses de Alexandria e do Cairo, fazendo com que os egípcios parecessem culpados”.
O mais difundido jornal israelense noticiou episódios e fotos que esclarecem bem como pensam – e agem – as tropas sionistas: “Uma mostra um soldado israelense com a bota sobre o tórax de um palestino que acabara de ser morto em um campo de pimentões no Gush Katif, ao sul de Gaza. O militar parece imitar um caçador que acabara de abater um animal”. No Canadá, um desertor do exército estadunidense relata que seus “companheiros de arma jogavam futebol com a cabeça de um iraquiano decapitado”.
“O Estado de Israel ampliou suas fronteiras em mais de 50% além das áreas atribuídas ao Estado judeu pela ONU em 1947, enquanto a área destinada aos palestinos já foi reduzida em cerca de 60%, e tudo isso sem contar as colônias e as outras expropriações realizadas por Israel na Cisjordânia”, conforme análise de “conceituados” órgãos de imprensa estadunidense, judeus israelenses ou norte-americanos. E não é tudo: “o furto da terra, que anda ao lado do muro, chega a aproximadamente 12% da Cisjordânia”. Uma realidade “cada vez mais semelhante à da África do Sul do apartheid”, bantustões, formalmente “Estados independentes”, mas de fato sem qualquer autonomia no plano econômico e militar. “A aplicação de tal modelo à Faixa de Gaza e à Cisjordânia permitiria que Israel se mantivesse como ‘Estado judeu’ evitando a ameaça representada pelo rápido crescimento demográfico dos ‘negros’ palestinos e perpetuando a subjugação destes de diferentes formas… Não obstante o ‘desempenho’, Israel continua a ter total controle sobre a Faixa de Gaza e arredores, o espaço aéreo, o fornecimento de água e energia elétrica, a vida e a morte – como demonstram as recorrentes incursões de carros armados e blindados -, os bombardeios, as ‘execuções extrajudiciais’ com seu séquito de ‘danos colaterais’ mais ou menos amplos, tudo decidido de forma soberana por Tel Aviv”.
O entranhamento desta ideologia fascista é visível, estampada no “culto reservado a Baruch Goldstein, ‘o médico colono que em fevereiro de 1994 invadiu a Mesquita de Abraão, em Hebron, e disparou sobre os crentes ajoelhados para rezar’. Morreram 29, enquanto os feridos passaram de uma centena. Em 1997, em honra deste ‘santo’, é publicado um livro: O homem bendito”.
Como jornalista do HP visitei em 2001 os territórios palestinos ocupados. Lembro dos olhos das crianças como o alvo principal das balas de aço israelenses, revestidas de borracha para não matar, “apenas” para servir de alerta aos jovens braços que jogavam pedras contra os tanques nazi-israelenses na segunda Intifada. Da fila de crianças nos hospitais no aguardo de um visto dos sionistas para poderem viajar e serem operadas na Alemanha, já que a pista de seu aeroporto havia sido tomada por crateras após os bombardeios. De um senhor baleado na cabeça enquanto conversava a meu lado na cidade de Hebron, dos hospitais repletos de mutilados pela covardia, do esgoto correndo a céu aberto em Gaza, das estradas bloqueadas na Cisjordânia, do roubo da água, do assalto às terras. De lá para cá, a segregação, como o muro do apartheid, só cresceu… Como a consciência e o repúdio internacional à ocupação.
Encerro com as palavras de Ho Chi Minh. Em 1924, quando era tão somente mais um jovem indochinês, de nome Nguyen Sinh Cung, chegando à República estadunidense em busca de trabalho, assistindo horrorizado a um linchamento: “No chão, cercada de um cheiro de gordura e de fumaça, uma cabeça negra, mutilada, assada, deformada, faz uma careta horrível e parece perguntar ao sol que se põe: ‘Isto é civilização?’ “.

Texto de Leonardo Wexell Severo – Assessor de Comunicação da CUT Nacional, membro do Conselho Consultivo do Centro de Estudos de Mídia Barão de Itararé e autor do livro Bolívia nas ruas e urnas contra o imperialismo (Editora Limiar, segunda edição)

 

dochinês, de nome Nguyen Sinh Cung, chegando à República estadunidense em busca de trabalho, assistindo horrorizado a um linchamento: “No chão, cercada de um cheiro de gordura e de fumaça, uma cabeça negra, mutilada, assada, deformada, faz uma careta horrível e parece perguntar ao sol que se põe: ‘Isto é civilização?’ “.

Texto de Leonardo Wexell Severo – Assessor de Comunicação da CUT Nacional, membro do Conselho Consultivo do Centro de Estudos de Mídia Barão de Itararé e autor do livro Bolívia nas ruas e urnas contra o imperialismo (Editora Limiar, segunda edição)